Nas décadas de 1980 e 1990, a China era sinônimo de mão de obra barata. Os trabalhadores chineses custavam muito menos em relação à sua produtividade quando comparados à maioria dos outros países. Empresas do mundo todo corriam para estabelecer fábricas na China, lucrando com essa diferença, o que impulsionou um crescimento explosivo no emprego e uma migração histórica do campo para as cidades.
Mas essa era chegou ao fim.
Desde o final dos anos 1990, mudanças institucionais no mercado de trabalho chinês e a transição demográfica – que reduziu drasticamente o que antes era uma oferta abundante de mão de obra – começaram a transformar a realidade. O que costumava ser um “subpreço” da mão de obra chinesa está definitivamente acabando. Os salários estão crescendo mais rápido que a produtividade, especialmente em indústrias intensivas em trabalho manual, como confecções e eletrônicos. Essas fábricas já começaram a migrar para países como Índia e Vietnã.
Um País de Salários Médios
A China está se tornando rapidamente um país de salários médios. Segundo dados oficiais do National Bureau of Statistics da China, o salário médio anual em unidades urbanas não privadas atingiu 124.110 yuan (aproximadamente US$ 17.200) em 2024, representando um crescimento nominal de 2,8% em relação ao ano anterior.
Para contextualizar essa transformação: entre 2013 e 2023, os salários médios anuais em unidades urbanas não privadas cresceram de cerca de 51.500 yuan para 120.698 yuan por ano – mais que dobrando em apenas uma década. De 2010 a 2021, a China manteve taxas de crescimento salarial que frequentemente ultrapassaram 9% ao ano.
O artigo original que analisamos, de 2012, projetava que se o ritmo de crescimento salarial de 13,8% ao ano observado naquela década se mantivesse, o salário real médio urbano na China chegaria a US$ 20.000 até 2020. Embora as taxas de crescimento tenham se moderado desde então – refletindo a maturação natural da economia – os salários chineses efetivamente alcançaram esse patamar simbólico. Para comparação histórica, os trabalhadores manufatureiros americanos atingiram salários de US$ 20.000 em 1980, os japoneses em 1986 e os coreanos em 1995.
Paralelamente, a produtividade continua crescendo, com os ativos totais por trabalhador nas empresas acima do tamanho designado atingindo 102.452 yuan em 2024, um aumento de 4,4% em relação ao ano anterior.
A Migração das Fábricas
A indústria têxtil e de confecções está se deslocando da China para países como Vietnã, Bangladesh e Índia devido ao aumento dos custos de mão de obra, tensões geopolíticas e necessidade de resiliência nas cadeias de suprimento. Grandes montadoras também estão explorando centros alternativos de manufatura como Vietnã, Índia e México para montagem de veículos e produção de peças.
Nike, Intel e Dell são exemplos de empresas que diversificaram com sucesso sua produção para o Vietnã e outros países. A Apple começou a produzir AirPods no Vietnã para reduzir custos de importação da China, e a Samsung realocou uma de suas fábricas chinesas para o Vietnã, levando a um aumento de 300% na produção eletrônica.
O Vietnã se destaca particularmente nessa transição. Em 2023, o Vietnã atraiu 9,5 vezes mais investimentos diretos estrangeiros per capita do que a Índia e exportou quase 4 vezes mais bens do que a Indonésia. Enquanto a Tailândia expandiu sua base manufatureira em 14% nos últimos dez anos, o Vietnã expandiu a sua em impressionantes 116%.
A Índia Entra em Cena
A Índia emergiu como outro grande destino nessa reconfiguração da manufatura global, especialmente para empresas americanas. A Apple se tornou o caso mais emblemático dessa mudança: em 2024, cerca de 18% dos iPhones do mundo foram produzidos na Índia, e esse número deve saltar para 32% em 2025. A empresa já montou iPhones no valor de US$ 22 bilhões na Índia entre abril de 2024 e março de 2025, exportando US$ 17,5 bilhões desses dispositivos para o exterior.
O CEO da Apple, Tim Cook, anunciou em maio de 2025 que a maioria dos iPhones vendidos nos Estados Unidos teriam a Índia como país de origem já no terceiro trimestre do ano. A meta da empresa é de enviar praticamente todos os iPhones vendidos nos EUA a partir da Índia até o final de 2026. Para viabilizar essa expansão, a Foxconn anunciou um investimento de US$ 1,5 bilhão em uma nova fábrica de módulos de display em Tamil Nadu, que deve criar cerca de 14 mil empregos – um dos maiores investimentos em eletrônicos já vistos na Índia.
Em maio de 2025, o presidente Donald Trump revelou publicamente que pressionou Tim Cook a interromper a expansão da produção na Índia e trazer a manufatura para os Estados Unidos. “Eu disse a ele: ‘Tim, não faça isso. Nós te tratamos muito bem, toleramos todas as fábricas que você construiu na China por anos, agora você precisa construir aqui'”, declarou Trump em um evento em Doha, Qatar.
Trump argumentou que a Índia “pode cuidar de si mesma” e que esperava que os iPhones vendidos nos Estados Unidos fossem fabricados em território americano. No entanto, especialistas são céticos quanto à viabilidade dessa proposta: segundo o analista Dan Ives da Wedbush, levaria três anos e US$ 30 bilhões para a Apple transferir apenas 10% de sua cadeia de suprimentos para os EUA. Mais alarmante ainda, o custo de um iPhone fabricado nos Estados Unidos poderia chegar a US$ 3.500 – comparado aos atuais US$ 999 de um iPhone 16 Pro – devido aos custos mais elevados de mão de obra americana.
A pergunta crucial é: a China está pronta para subir na escada tecnológica? A resposta, surpreendentemente, é sim.
Primeiro, a produtividade agregada do trabalho na China vem crescendo de forma consistente, em parte devido aos pesados investimentos das empresas manufatureiras em pesquisa e desenvolvimento (com gastos aumentando 16,9% ao ano nas últimas duas décadas) e ao aprofundamento de capital (os ativos totais por trabalhador na China chegaram a US$ 94.240 em 2010).
Segundo, e talvez mais impressionante, é o investimento massivo em educação. Em 1999, o governo chinês lançou um agressivo movimento de “Expansão Universitária” que aumentou o número de ingressantes em universidades de 1,1 milhão em 1998 para 6,6 milhões em 2011. Em 2025, espera-se que 12,22 milhões de estudantes se formem em universidades chinesas, um aumento de 430.000 em relação ao ano anterior. Alguns especialistas preveem que até 2050, 40% da força de trabalho chinesa terá diploma universitário – semelhante ao nível do Japão hoje.
Claro, essa transformação não vem sem desafios. Em 2024, um recorde de 11,79 milhões de estudantes se formaram em universidades chinesas, colocando pressão adicional sobre o mercado de trabalho, com a taxa de desemprego para jovens de 16 a 24 anos atingindo 21,3% em junho de 2023. O governo chinês tem lutado para criar empregos suficientes em meio a uma recuperação econômica irregular, afetada pela crise no setor imobiliário e incerteza no setor privado.
Mas esses são os sintomas de uma economia em transição, não em declínio. A China precisa, como outros países de renda média, fazer a transição para indústrias de maior valor agregado, seja para exportação ou para o mercado doméstico.
O fim da mão de obra barata na China não significa o fim do crescimento econômico chinês. Significa, na verdade, uma transformação profunda. O aumento da produtividade e da educação indica que a vantagem comparativa da China está mudando. Se o país conseguir melhorar a qualidade da educação e desenvolver instituições que fomentem inovação e empreendedorismo, a China poderá se juntar à Coreia do Sul e ao Japão (com um atraso de duas décadas) como uma força formidável em manufatura de alto valor agregado e inovação.
Para o Brasil e outros países em desenvolvimento, essa mudança representa tanto desafios quanto oportunidades. Por um lado, a migração de indústrias intensivas em mão de obra para países como Vietnã e Índia cria uma nova concorrência. Por outro, abre espaço para que outros países capturem parte dessa produção, desde que desenvolvam as condições adequadas de infraestrutura, educação e ambiente de negócios.
A história da China nos últimos 40 anos é, em muitos aspectos, uma história sobre como investimentos estratégicos em educação e infraestrutura podem transformar uma economia. É uma lição valiosa para qualquer nação que aspira ao desenvolvimento econômico sustentável.
Artigo baseado em: Hsieh, C. T., & Klenow, P. J. (2012). “The End of Cheap Chinese Labor,” Journal of Economic Perspectives. Disponível em: https://pubs.aeaweb.org/doi/pdfplus/10.1257/jep.26.4.57
