A discussão sobre a jornada de trabalho conhecida como 6×1 — seis dias trabalhados seguidos por um dia de descanso — entrou de maneira vigorosa no debate público brasileiro, envolvendo tanto argumentos acadêmicos quanto posicionamentos políticos intensos. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que visa acabar com a escala de trabalho 6×1, apresentada pela deputada Erika Hilton, mobilizou milhões de brasileiros e reacendeu um debate crucial sobre qualidade de vida, bem-estar dos trabalhadores e o futuro das relações de trabalho no país. Com mais de 2 milhões de assinaturas e forte apoio popular, a proposta representa um anseio legítimo por melhores condições laborais.
Contudo, uma controvérsia recente expôs uma tensão importante no debate público brasileiro: até que ponto podemos questionar ou apresentar estudos técnicos sobre propostas populares sem sermos acusados de má-fé?
Em novembro de 2024, Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/IBRE) e mestrando em Ciências Econômicas na UFRJ, publicou um estudo analisando o impacto econômico imediato do fim da escala 6×1. O trabalho utilizou dados da PNAD Contínua e estimativas do Observatório de Produtividade Regis Bonelli para projetar diferentes cenários (O impacto econômico imediato do fim da escala de trabalho 6×1 | Blog do IBRE).
No cenário base, mantendo produtividade e emprego constantes, o estudo estimou uma perda de renda da economia entre 2,6% (com redução para 40 horas semanais) e 7,4% (com redução para 36 horas, conforme proposto na PEC). Para contextualizar, uma queda de 7,4% no PIB seria comparável à recessão brasileira de 2014-2016.

A metodologia escolhida utiliza dados da PNAD Contínua do IBGE e estimativas de produtividade por hora trabalhada para cada setor econômico, segmentados entre formal e informal, e aplica esses coeficientes às mudanças de jornada propostas. Essa abordagem, comum em exercícios de impacto, parte da lógica contábil: reduzindo as horas trabalhadas e mantendo inalterados outros fatores, há uma redução proporcional no valor total produzido no país. Além disso, o estudo modela cenários otimistas com ganhos de produtividade marginal e pessimistas com redução de empregos, resultando em variações nos impactos projetados.

O estudo também apresentou cenários otimistas e pessimistas. No otimista, considerando aumento de 1% na produtividade devido a fatores como melhor saúde mental e mais descanso, a perda seria de 2,1% a 6,8%. No pessimista, com perdas de empregos e fechamento de empresas, os impactos chegariam a 3,3% e 8,1%, com possível perda de até 1,15 milhão de postos de trabalho.
É fundamental registrar que o próprio texto ressalta que os números obtidos decorrem de hipóteses específicas e de um exercício de modelagem, não de uma observação empírica longitudinal. Essa distinção metodológica é importante para compreender o alcance e os limites das conclusões apresentadas.
Em reação às projeções econômicas, a deputada Érika Hilton publicou em suas redes sociais uma crítica direta ao estudo de Duque, chamando-o de “editorial vergonhoso” e classificando a fundamentação técnica utilizada como uma fórmula matemática inventada que não refletiria adequadamente a realidade social e econômica dos trabalhadores. Segundo ela, a análise se basearia em “uma fórmula matemática inventada que diz que o PIB é formado unicamente pelo número de horas trabalhadas pela população”, questionando a seriedade metodológica do trabalho.
A crítica da parlamentar reflete uma preocupação legítima: estudos econômicos podem, de fato, servir para bloquear avanços sociais necessários. Historicamente, resistências similares foram levantadas contra o fim da escravatura, a criação do 13º salário e a valorização do salário mínimo, sempre com previsões catastróficas que não se concretizaram.
O Problema do Debate Polarizado
Aqui chegamos ao cerne da questão que merece reflexão: por que um estudo técnico, conduzido por uma instituição respeitada e seguindo metodologia científica, deveria ser desqualificado antes mesmo de ser debatido?
A decomposição utilizada por Duque não é uma “fórmula inventada”, mas sim uma identidade contábil amplamente utilizada em economia do trabalho: PIB = (PIB/Horas Trabalhadas) × (Horas Trabalhadas/População Ocupada) × População Ocupada. Ou seja, o produto da economia resulta da produtividade por hora, multiplicada pela jornada média, multiplicada pelo número de trabalhadores.
O estudo não afirma que reduzir jornada é necessariamente ruim. Ele tenta quantificar custos sob diferentes hipóteses, justamente para informar o debate. Duque inclusive reconhece, em entrevistas posteriores, que faltam dados específicos sobre trabalhadores na escala 6×1, suas características e os setores afetados — o que dificulta uma análise mais precisa.
Toda mudança estrutural profunda na sociedade tem custos e benefícios. Ignorar os custos não faz com que eles desapareçam; apenas nos deixa despreparados para enfrentá-los.
Um estudo técnico sério não é um ataque a uma proposta, mas uma ferramenta de planejamento. Saber que uma redução de jornada pode gerar pressão inflacionária, perda temporária de empregos ou impacto diferenciado em setores específicos permite:
- Desenhar políticas de transição que protejam os mais vulneráveis
- Identificar setores que precisam de apoio durante a mudança
- Calibrar a implementação de forma gradual e sustentável
- Antecipar problemas e preparar soluções
Países como Reino Unido e Islândia, frequentemente citados como exemplos bem-sucedidos de redução de jornada, conduziram projetos-piloto justamente para mensurar impactos antes de implementações em larga escala. A própria FGV realizou análise de um piloto brasileiro em 2024, com 21 empresas, mostrando resultados positivos em alguns indicadores.
É fundamental distinguir entre questionar metodologia e ser contra uma proposta. Daniel Duque não se posicionou contra o fim da escala 6×1 em seu estudo; ele tentou estimar impactos econômicos imediatos sob diferentes cenários. Isso é papel da pesquisa acadêmica.
Desqualificar estudos técnicos como “a serviço do empresariado” ou “terrorismo econômico” — críticas que surgiram no debate — cria um ambiente hostil para a produção de conhecimento. Se apenas estudos que confirmam nossas posições prévias são aceitos, deixamos de fazer ciência e passamos a fazer militância disfarçada de análise.
A questão de fundo é: queremos um debate informado ou apenas confirmação das nossas convicções?
A causa do fim da escala 6×1 é justa e merece ser levada adiante. Milhões de brasileiros trabalham em condições exaustivas, com apenas um dia de folga semanal, o que afeta saúde física e mental, vida familiar e bem-estar geral.
Mas reconhecer a legitimidade da causa não exige rejeitar toda análise que aponte desafios. Pelo contrário: quanto mais séria a proposta, mais ela se beneficia de estudos rigorosos que ajudem a refinar sua implementação.
Ciência e Política Podem (e Devem) Conviver
O Brasil precisa avançar em direitos trabalhistas e qualidade de vida. Também precisa fazer isso de forma sustentável e bem planejada. Estudos como o de Daniel Duque não são inimigos dessa agenda — são ferramentas para torná-la viável.
Criar uma cultura onde pesquisadores são atacados por apresentarem análises técnicas, mesmo que incômodas, empobrece o debate público e nos torna mais vulneráveis a decisões mal informadas.
O cerne da controvérsia não se reduz à qualidade do estudo de Duque ou à legitimidade do questionamento de Hilton, mas antes à tensão entre diferentes formas de produzir conhecimento e influenciar políticas públicas:
- O papel da análise quantitativa reside em estimar, com base em dados observáveis e metodologias reconhecidas, possíveis efeitos econômicos de mudanças normativas significativas — neste caso, uma redução substancial da jornada de trabalho e a eliminação da escala 6×1. Tais análises oferecem parâmetros para que legisladores, empregadores e a sociedade ponderem riscos e benefícios. Blog do IBRE
- O discurso político e social, por sua vez, enfatiza que mudanças como a proposta na PEC devem considerar dimensões humanas e sociais que as métricas econômico-quantitativas muitas vezes não capturam plenamente — tais como o impacto na saúde mental, na convivência familiar ou na sensação de dignidade no trabalho. Wikipédia
O ponto de inflexão surge quando a crítica política questiona não apenas as conclusões, mas a validade epistemológica do exercício académico em si — ou seja, se é legítimo construir projeções numéricas para temas que afetam condições de vida e relações sociais profundas.
A deputada Erika Hilton tem todo o direito de discordar das conclusões do estudo, questionar suas premissas e apresentar contrapontos. O que não deveria acontecer é o descarte sumário de análises sérias simplesmente porque seus resultados não agradam.
Negar a possibilidade de questionar ou debater seriamente estudos de impacto econômico é, em última instância, uma posição que empobrece o diálogo público e priva tomadores de decisão e cidadãos de argumentos melhor fundamentados para enfrentarem escolhas complexas.
No fim, todos queremos uma sociedade mais justa e equilibrada. O caminho para chegar lá passa por debate honesto, dados confiáveis e disposição para ouvir perspectivas diferentes — mesmo quando elas desafiam nossas convicções.
Este texto não defende ou ataca a PEC do fim da escala 6×1. Defende o direito ao debate técnico sério sobre qualquer proposta que afete profundamente nossa sociedade.
