O Desastre Completo do Banco Master em Números

Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de todo o seu conglomerado — o maior colapso de instituição financeira no Brasil desde o Banco Nacional em 1995. O que chamou atenção não foi só o volume (R$ 41 bilhões garantidos pelo FGC), mas principalmente quem perdeu dinheiro acima do teto de garantia: fundos de previdência de servidores, estatais e entidades que deveriam priorizar segurança acima de tudo.

Os CDBs e letras financeiras do Master ficaram famosos por pagarem até 140% do CDI (e em alguns lotes negociados no mercado secundário, efetivamente 150-160% do CDI após deságio). Para quem nunca investiu, é simples: o CDI é a taxa básica dos títulos entre bancos. Grandes bancos pagam 90-105% do CDI. Quando alguém oferece 140% ou mais, está gritando para o mercado: “Preciso muito de dinheiro e estou disposto a pagar caro por ele”. Esse “prêmio” extra é exatamente a compensação pelo risco de crédito — ou seja, o risco de o banco quebrar e você não receber.

E quebrou.

Quem ficou dentro do limite de R$ 250 mil por CPF/CNPJ (com rendimentos) recebe do FGC e sai no zero a zero (só perde tempo). Quem passou disso — ou aplicou em letras financeiras sem cobertura do FGC — entra na fila da massa falida, com recuperação incerta e provavelmente com deságio forte.

O mais grave foram as instituições que gerem dinheiro público ou de servidores. Entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, 18 fundos previdenciários de estados e municípios (RPPS) apliclicaram R$ 1,876 bilhão em letras financeiras do Master — títulos sem garantia do FGC e reservados por lei a investidores qualificados.

Um caso que resume bem o absurdo é o São Roque Prev (fundo dos servidores municipais de São Roque/SP):

  • Aplicou R$ 107 milhões em letras financeiras do Master (vencimento em 10 anos, sem FGC).
  • Isso representava quase 20% de todo o patrimônio do fundo (R$ 574 milhões) — beirando o limite legal de concentração para um único emissor em RPPS.
  • Justificativa oficial dos gestores: “A instituição está autorizada a funcionar pelo Banco Central e oferecia ótima taxa”. A assessoria de investimentos contratada tratou notícias negativas como “ruído político sem fundamento”.

O caso mais emblemático segue sendo o Rioprevidência (RJ):

  • R$ 960 milhões em letras financeiras (vencimento 2033/2034), parte de exposição que chegou a R$ 2,6 bilhões no conglomerado.
  • Apesar de alertas internos desde maio de 2024 e proibição do TCE-RJ, continuaram aplicando até agosto.
  • Agora tentam trocar esses títulos por precatórios federais — manobra desesperada sem garantia de aceitação pelo interventor do BC.

E aqui entra um detalhe que joga luz sobre o quanto o problema era conhecido — e ignorado — nos altos escalões:
Em julho de 2024, técnicos da Caixa Asset emitiram um parecer sigiloso de 19 páginas destruindo qualquer ilusão sobre o Master. Conclusão literal: o banco não tinha “clareza, efetividade e consistência em seus números”, operava “no limite dos índices de Basileia”, carregava uma carteira cheia de precatórios e direitos creditórios de difícil compreensão e liquidez duvidosa, e tinha histórico reputacional de executivos envolvidos em manipulação de preços, irregularidades na CVM e crimes financeiros. Recomendação: nem pensar em aplicar R$ 500 milhões a 130% do CDI. Os dois gerentes que assinaram o relatório foram demitidos logo depois — oficialmente por “razões técnicas”.

E tem mais um capítulo que não pode ficar de fora: a tentativa desesperada do BRB de comprar o controle do Master.
Em março de 2025, o BRB anunciou acordo para adquirir 58% do banco de Daniel Vorcaro por cerca de R$ 2 bilhões — operação defendida com unhas e dentes pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), que classificou como “um dia de festa” e pressionou a Câmara Legislativa a aprovar lei autorizadora em regime de urgência. Entre 2024 e 2025, o BRB injetou R$ 16,7 bilhões em operações com o Master (incluindo compra de carteiras de crédito que a PF agora investiga como falsas). O BC vetou a compra em setembro de 2025 por riscos graves. Ibaneis acusou “pressão política” do PT/PSB contra o DF. Hoje a PF investiga se houve pressão de políticos para forçar o BRB a salvar o Master com dinheiro público — operação que, se consumada, teria socializado o prejuízo com os contribuintes do Distrito Federal.

Isso não é só erro de gestão. Isso é sintoma de um problema sistêmico brasileiro: corrupção, fisiologismo político e governança frouxa transformam dinheiro de aposentadoria de servidores em aposta de cassino para render uns pontos a mais no curto prazo — ou, pior, para atender interesses que nada têm a ver com o bem público.

E a malandragem não parou aí:
Antes da liquidação do banco, surgiram propostas no Congresso para elevar o limite do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão (ou mais) por CPF, alegando “proteção ao pequeno investidor”. O principal projeto recente é o PL 4.395/2024, apresentado em novembro de 2024 pelo deputado Filipe Barros (PL-PR). O texto foi protocolado exatamente às vésperas das tratativas entre Master e BRB, e incluiria explicitamente CDBs, LCIs, LCAs e letras financeiras na cobertura ampliada. Outra tentativa famosa veio do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que em 2024 tentou emplacar uma emenda elevando o teto para R$ 1 milhão (conhecida nos bastidores como “emenda Master”, por beneficiar diretamente o modelo de captação agressiva do banco).

O que parece bondade é, na prática, um incentivo perigoso: quanto maior a garantia, mais plataformas e bancos podres vão empurrar CDBs a 140%-150% do CDI, sabendo que o risco fica com o sistema inteiro (e com os bancos saudáveis que pagam a conta). O próprio diretor-executivo do FGC, Daniel Lima, já havia afirmado que “não há razão técnica para elevar o limite do seguro” — o fundo está capitalizado, o teto atual já protege 99,9% dos investidores pessoa física e aumentar criaria risco sistêmico maior.

Lista dos principais fundos RPPS expostos:

  • Rioprevidência (RJ): R$ 970 milhões
  • Amapáprevidência (AP): R$ 400 milhões
  • São Roque Prev (SP): R$ 107 milhões
  • Maceió Prev (AL): R$ 97 milhões
  • Cajamar Prev (SP): R$ 87 milhões
  • Itaguaí Prev (RJ): R$ 59,6 milhões
  • Amazonas Prev (AM): R$ 50 milhões
  • Aparecida Prev (GO): R$ 40 milhões
  • Araras Prev (SP): R$ 29 milhões
  • … (outros menores em MG, MS, PE etc.)

Some-se a Cedae (RJ) com R$ 200 milhões adicionais em títulos do Master, já sob investigação do TCE-RJ.

Consequências em cascata

  1. FGC pagará R$ 41 bilhões — recorde histórico — e repassará o custo para todos os bancos.
  2. Fundos de pensão com buracos precisarão de aportes extras dos estados/municípios ou dos próprios servidores.
  3. Tentativas políticas como o PL 4.395/2024 de Filipe Barros (PL-PR) e a “emenda Master” de Ciro Nogueira (PP-PI) mostram como parte do Congresso quer premiar exatamente o comportamento que gerou a crise.
  4. Enquanto corrupção e má governança não forem enfrentadas de verdade, episódios assim vão continuar atrasando qualquer avanço real em previdência, saneamento e infraestrutura.

No fim, o caso Banco Master é a prova viva de uma regra que nunca muda: rentabilidade acima da média só existe porque alguém está cobrando pelo risco. Quando esse alguém é o aposentado do futuro, o contribuinte de hoje ou o país inteiro que fica refém de sucessivas crises de governança, o erro deixa de ser só financeiro e vira mais um capítulo da tragédia brasileira de sempre.

Fontes para quem quiser checar os fatos