Há figuras que atravessam um período tumultuado da história e saem do outro lado maiores do que entraram. Oswaldo Aranha é uma delas. Político, advogado e diplomata, foi, talvez, o brasileiro que mais influenciou o rumo do país durante os anos mais sombrios do século XX. E o fez de dentro, navegando num governo cheio de contradições, cercado por simpatizantes do nazismo e de um presidente que jogava os dois lados ao mesmo tempo.
Oswaldo Euclides de Sousa Aranha nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 15 de fevereiro de 1894. A cidade, no extremo oeste gaúcho, quase na fronteira com o Uruguai, era território de estancieiros e de uma política local intensa. Filho de Luísa de Freitas Vale — por quem foi alfabetizado — e do coronel da Guarda Nacional e fazendeiro Euclides de Sousa Aranha, dono da estância Alto Uruguai, passou a infância numa cidade que seu próprio avô teria fundado. Era, por todos os lados, filho de uma tradição.
A família era de posses e de influência política, o que abriu portas, mas não explica o talento. Com apenas nove anos, em 1903, foi matriculado num internato de formação jesuítica em São Leopoldo, de onde se desligou três anos depois quando correu o risco de ficar cego, para tratamento em Buenos Aires. Entre saúde frágil e viagens precoces, o menino já acumulava uma experiência de mundo incomum para a época. Estudou no Colégio Militar do Rio de Janeiro, depois na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais — atual Faculdade Nacional de Direito da UFRJ — e ainda passou uma temporada em Paris antes de voltar ao Sul para advogar.
A referência intelectual que moldou o jovem Aranha foi Rui Barbosa. Sua admiração pela “campanha civilista” de Rui contra a candidatura do Marechal Hermes da Fonseca foi determinante na escolha pelo Direito. Era o tipo de homem que lia muito, pensava mais e agia com convicção — o que ficaria evidente em toda a sua carreira. Sua biblioteca pessoal chegou a ter mais de onze mil volumes.
1930
Em 1917, já advogando em Uruguaiana, Aranha conheceu Getúlio Vargas, que na época também era advogado. Chegaram a ter clientes em comum. A amizade se aprofundou em 1928, quando Vargas — então presidente do Rio Grande do Sul — o convidou para ser seu secretário do Interior. A partir daí, os destinos dos dois se misturaram de forma quase inextricável, com Aranha sempre sendo o mais impulsivo, o mais disposto a arriscar, o que colocava o corpo onde a boca prometia.
A Revolução de 1930 não teria acontecido sem ele. O historiador Stanley Hilton, principal biógrafo de Aranha, é enfático: a revolução realizou-se por causa de sua firmeza de vontade, de sua determinação invulgar e de sua capacidade de persuasão e organização. O próprio Vargas, anos mais tarde, confessou ser o rapaz de Alegrete o “grande animador da revolução”. Com Vargas no poder, Aranha assumiu o Ministério da Justiça e depois a pasta da Fazenda, onde zerou a dívida herdada da República Velha — algo que rendeu elogios até do Barão de Rothschild, em carta pessoal ao ministro.
Em 1934, aceitou o cargo de embaixador em Washington. Foi lá que a dimensão internacional do personagem tomou forma definitiva. Impressionou-se com a democracia americana, construiu uma relação pessoal sólida com Franklin Roosevelt e entendeu, antes de quase todo mundo no governo brasileiro, que o Brasil precisava de um alinhamento estratégico claro — e que esse alinhamento deveria ser com os Estados Unidos. Nenhum outro embaixador brasileiro em Washington, antes ou depois, logrou tamanho prestígio e acesso às mais altas autoridades norte-americanas em circunstâncias que tanto afetaram os destinos do país.
O Itamaraty
Em março de 1938, Vargas o convenceu a assumir o Ministério das Relações Exteriores. O desafio era imenso: de um lado estavam os americanófilos, dos quais Aranha era o maior expoente; do outro, os germanófilos, representados principalmente pelos ministros militares Eurico Dutra e Góis Monteiro, que não escondiam a simpatia pelas potências do Eixo. Era uma batalha travada dentro do próprio gabinete, com Vargas — aquela velha raposa dos pampas, como era chamado — mantendo os dois grupos em suspense, negociando com alemães e americanos ao mesmo tempo.
Aranha sabia desse jogo e apostava na sua posição com determinação. Ainda em 1939, alertou Vargas sobre as dificuldades que o Brasil enfrentaria nos anos seguintes: o país deveria construir uma opinião pública pró-Estados Unidos, garantir segurança energética e alimentar — já que combustíveis e trigo eram majoritariamente importados — e sanear as obrigações internacionais antes que a guerra tornasse tudo mais difícil. Era visão estratégica, não apenas posicionamento ideológico.
Quando o Japão atacou Pearl Harbor, em dezembro de 1941, e os Estados Unidos entraram na guerra, o tabuleiro virou de vez. Em janeiro de 1942, na Conferência do Rio presidida por Aranha, o Brasil e todos os países americanos decidiram romper relações com o Eixo — com exceção da Argentina e do Chile, que o fariam mais tarde, a contragosto. Após o anúncio, uma multidão tomou as ruas em frente ao Palácio Itamaraty desde as três da tarde, exigindo o pronunciamento do ministro. Da sacada do primeiro andar, Aranha discursou por uma hora, interrompido a todo momento por aplausos. Era um político que tinha o povo do lado — e isso incomodava o Palácio do Catete.
Em 1943, foram assinados os Acordos de Washington, que formalizaram a aliança: o Brasil venderia matérias-primas aos americanos em troca de apoio técnico e militar. O Brasil não entrou na guerra como coadjuvante — entrou negociando. E Aranha foi o arquiteto desse acerto. No ano seguinte, pressionado internamente e enfraquecido pelo fechamento da Sociedade dos Amigos da América, pediu demissão. O pretexto era menor; a causa real era o prestígio que lançava sombra demais sobre o Catete.
O julgamento da história é claro: sobretudo a Oswaldo Aranha deve o Brasil ter evitado o desastroso erro estratégico da Argentina — que ficou do lado errado e pagou um preço geopolítico alto por isso — e ter se posicionado como o país latino-americano que mais ganhou em poder e prestígio ao participar, ativamente e no lado certo, da Segunda Guerra Mundial. Seus biógrafos o consideram o maior estadista brasileiro desde o Barão do Rio Branco.
Três anos depois de deixar o Itamaraty, em 1947, Aranha presidiu a Assembleia Geral das Nações Unidas — o único brasileiro a ocupar esse posto — e conduziu a votação da resolução que criou o Estado de Israel, adiando a votação por três dias para garantir a aprovação. Há uma rua com seu nome em Tel Aviv, outra em Bersebá, uma praça em Jerusalém. Em Alegrete, existe um museu. No Rio de Janeiro, um prato — o filé à Oswaldo Aranha, criado nos restaurantes que ele frequentava. É uma honra pequena para um homem de escala grande, mas é a marca de quem passou pelo mundo de forma que o mundo não esquece. Morreu no Rio de Janeiro em 27 de janeiro de 1960.
Mais detalhes
- FGV CPDOC — Biografia de Oswaldo Aranha — principal repositório biográfico do período Vargas no Brasil
- Itamaraty — Discurso de Celso Amorim no centenário de Aranha (1994)
- FUNAG — Oswaldo Aranha: um estadista brasileiro, vol. 1 (PDF)
- Agência Brasil — Quem foi Oswaldo Aranha
- Jornal Opção — Aranha e a criação de Israel
- ANPUH-Rio 2016 — A Política Externa de Vargas e o papel de Oswaldo Aranha (PDF)
- Projeto Alterama — O exercício diplomático de Aranha em Washington (1934–1937)
