Xi Zhongxun (centro) e Xi Jinping (direita).

O Peso da Herança: Xi Zhongxun, Pai de Xi Jinping e a família Xi

A história contemporânea da China é frequentemente contada através de grandes transformações econômicas, mas raramente se mergulha nas raízes humanas e ideológicas que sustentaram o Partido Comunista Chinês (PCC) em seus momentos mais críticos. Este texto baseia-se na análise da obra biográfica The Party’s Interests Come First: The Life of Xi Zhongxun, Father of Xi Jinping (Os Interesses do Partido Vêm Primeiro: A Vida de Xi Zhongxun, Pai de Xi Jinping), escrita pelo historiador Joseph Torigian, professor da American University e especialista em política chinesa e russa. Publicado pela Stanford University Press em 2025, o livro preenche uma lacuna histórica ao detalhar a trajetória de uma das figuras mais complexas e resilientes do Partido Comunista Chinês (PCC).

Para entender a China de hoje, muitos buscam respostas na biografia de seus líderes. No entanto, o historiador Joseph Torigian propõe um caminho diferente em sua obra sobre Xi Zhongxun.

Em vez de focar apenas na relação entre pai e filho — Xi Zhongxun é pai do atual líder chinês, Xi Jinping — Torigian utiliza a vida do patriarca para nos guiar por dentro da própria história do Partido Comunista Chinês (PCC). A ideia não é especular sobre influências familiares, mas sim dar luz a uma figura histórica fundamental que, por muito tempo, ficou em segundo plano nos livros de história ocidentais.

É comum tentarmos entender políticos estrangeiros usando etiquetas familiares: “ele é moderado”, “ele é radical”, “esquerda” ou “direita”. Torigian alerta logo no início que essas categorias são limitadas para descrever a realidade chinesa.

Ao longo de mais de 50 anos de carreira pública, Xi Zhongxun mostrou que a política na China é muito mais complexa do que um simples “bom” ou “mau”. Ele foi um homem de nuances, cuja trajetória atravessou décadas de transformações profundas no país.

O título da biografia resume bem quem foi Xi. Na década de 1940, o próprio Mao Tsé-Tung o descreveu como alguém que colocava os interesses do Partido e do povo acima de suas ambições pessoais — uma lealdade que, por diversas vezes, trouxe custos altos para sua própria vida e segurança.

Este texto que você lerá a seguir mergulha nesses detalhes, explorando como a resiliência e a disciplina de Xi Zhongxun ajudaram a moldar os alicerces de uma das nações mais poderosas do mundo.O livro explora como Xi Zhongxun navegou por décadas de turbulência política, desde as batalhas como jovem guerrilheiro em Shaanxi até seu papel como arquiteto das reformas econômicas no final do século XX. O livro utiliza a vida de Zhongxun para explicar a própria evolução do sistema chinês:

Humanidade e Rigor: Detalhes como o fato de ele fazer seus filhos (incluindo Xi Jinping) usarem roupas remendadas e banharem-se em água reutilizada são usados para ilustrar uma ética de austeridade que definiu sua geração.

Resiliência sob Pressão: O texto detalha o longo período de ostracismo de Xi durante a Revolução Cultural, quando foi removido de seus cargos e isolado, apenas para retornar anos depois sem o desejo de vingança, mas com foco na estabilidade nacional.

O Legado das Zonas Econômicas: Torigian credita a Xi Zhongxun um papel vital na criação da Zona Econômica Especial de Shenzhen, o laboratório que permitiu a abertura da China ao mercado global.

O autor explora a vida de Xi Zhongxun desde suas origens humildes na província de Shaanxi. Diferente de muitos de seus contemporâneos, Xi não foi atraído pelo comunismo apenas pela teoria marxista acadêmica, mas pela vivência em uma região marcada pela fome, banditismo e as cicatrizes do fim da dinastia Qing.

O texto detalha pontos cruciais de sua carreira:

  • Fundação de Bases Revolucionárias: Xi foi um dos líderes fundamentais na criação da região fronteiriça de Shaanxi-Gansu, um reduto que serviu de porto seguro para Mao Zedong após a Longa Marcha.
  • O Ciclo de Expurgos e Reabilitação: A obra enfatiza a resiliência de Xi. Em 1962, ele foi vítima de uma intriga ideológica envolvendo a publicação de um romance, o que o levou a décadas de ostracismo e confinamento durante a Revolução Cultural.
  • O Pioneirismo Econômico: Talvez seu maior legado prático tenha sido a criação das Zonas Econômicas Especiais (como Shenzhen) no final da década de 70, que deram início ao “milagre chinês” sob a liderança de Deng Xiaoping.

Xi Zhongxun

Em uma noite de 1976, um homem chamado Yang Ping entrou no apartamento de Xi Zhongxun às oito da noite. Encontrou-o bebendo aguardente barata, sozinho no escuro, chorando. Era o aniversário de seu filho Jinping, e Xi Zhongxun não conseguia conter a angústia: “Seu pai é melhor que eu; ele cuidou tão bem de você. Eu também sou pai, mas por minha causa… Jinping quase morreu!” Yang descreveria mais tarde que Xi falou daquela noite com a voz entrecortada, repetindo que havia falhado com toda a sua família, que seu comportamento havia sido “criminoso”. Sua emoção beirava a perda total de controle — algo impensável para um homem conhecido por palavras concisas e controle férreo.

Xi Zhongxun | Foto da Wikipédia.

Dias depois, Xi Jinping visitou o pai. Ambos sentados em roupas íntimas por causa do calor sufocante do verão, Xi Jinping recitava de memória discursos de Mao enquanto o pai observava em silêncio.

Esta cena — documentada pelo pesquisador Joseph Torigian em sua biografia monumental de Xi Zhongxun — captura um paradoxo que define não apenas a família Xi, mas a própria China contemporânea: como transformar trauma em lealdade inabalável? Como um garoto que viu o pai ser arrastado, a mãe denunciá-lo, e a irmã se enforcar, ainda assim emerge como o líder mais poderoso do Partido que orquestrou toda essa destruição?

Xi Zhongxun não era qualquer revolucionário. Aos 15 anos, tentou envenenar o diretor de sua escola — os venenos acabaram hospitalizando vários professores, e ele foi preso pela primeira vez. Na prisão, aderiu ao Partido. Durante a guerra civil, quase morreu em combate múltiplas vezes. Foi preso novamente, desta vez por seus próprios camaradas comunistas, que planejavam enterrá-lo vivo. Só foi salvo quando Mao Zedong chegou à região após a Longa Marcha. Xi Zhongxun passaria o resto da vida agradecendo a Mao por ter salvado sua vida.

Após 1949, tornou-se uma das figuras mais importantes do novo regime — líder do Bureau do Noroeste, que incluía Xinjiang e Tibete, vice-primeiro-ministro, ministro da propaganda. Mao o descreveu como “a chama azul no fogão taoísta” — a mais pura forma de alquimia revolucionária, forjada por sofrimento incomparável.

Em 1962, tudo desmoronou. Uma escritora chamada Li Jiantong queria escrever um romance sobre Liu Zhidan, o mentor revolucionário de Xi Zhongxun. Inicialmente, Xi recusou — era perigoso demais. A queda de Gao Gang anos antes tornara impossível falar abertamente sobre o Noroeste. Mas sob pressão de outros revolucionários sobreviventes, Xi cedeu, dando conselhos sobre como ser cauteloso.

Não foi suficiente. Quando trechos do romance foram publicados, um rival chamado Yan Hongyan — que odiava Gao Gang e esperava se tornar o líder reconhecido dos revolucionários do Noroeste — ficou furioso. Ele não acreditava que Li Jiantong havia escrito aquilo sozinha. Acreditava que Xi Zhongxun estava por trás, tentando reabilitar Gao Gang.

Xi Zhongxun após sua prisão no início dos anos 1930: Meio de violência Foto: XI Zhongxun huace / Stanford University Press

A acusação chegou a Mao em um momento politicamente sensível, quando o líder estava obcecado com “luta de classes”. O que se seguiu foi devastador: cerca de 20 mil pessoas foram perseguidas no expurgo. Pelo menos 200 foram espancadas até a morte, enlouqueceram ou ficaram gravemente feridas. Xi Zhongxun foi banido, torturado — batido com tanta brutalidade que perdeu a audição de um ouvido. Durante oito anos de exílio e encarceramento, não viu a esposa nem os filhos.

Xi Jinping tinha nove anos quando o pai desapareceu. Aos 13, estava na Escola do Partido em Pequim, onde “sessões de luta” eram realizadas contra ele. Sua própria mãe, Qi Xin, participava dessas sessões. Quando o menino fugiu para pedir comida à mãe, ela não apenas o recusou — ela o denunciou às autoridades. Xi Jinping foi colocado em detenção juvenil.

“Sua mãe é melhor que a minha”, Xi Zhongxun diria anos depois, em desespero. “Ela nunca denunciou você.”

Durante a Revolução Cultural, a situação piorou. Guardas Vermelhos sequestraram Xi Zhongxun e o forçaram à posição do “avião” — cabeça baixa, braços esticados para cima por longos períodos. Uma de suas filhas, irmã de Xi Jinping, não aguentou a pressão e se enforcou.

Xi Jinping foi enviado para Liangjiahe, uma vila remota em Shaanxi — a mesma província onde seu pai havia lutado décadas antes. Ele passaria sete anos lá, dormindo em cavernas, carregando esterco, sendo devorado por percevejos. Sua candidatura à Liga da Juventude Comunista foi rejeitada oito vezes. Oito vezes ele foi considerado indigno. E oito vezes ele voltou a tentar.

Joseph Torigian, professor da American University que passou anos pesquisando arquivos e entrevistando sobreviventes, coloca a questão central: “Por que Xi Zhongxun permaneceu leal ao Partido que o torturou? Por que Xi Jinping não se voltou contra a instituição que destruiu sua infância?”

A resposta nesse caso pode explicar muitas coisas sobre como funciona o compromisso revolucionário comunista — essa ideia de que o sofrimento não enfraquece, mas fortalece. Que a dor é uma fornalha, e você emerge do outro lado purificado, mais dedicado. Xi Jinping diria mais tarde que qualquer pessoa que passou por aquela experiência de dúvida e retornou à fé teria uma convicção inabalável — “nada poderia torná-lo mais forte”.

A Educação de Xi Jinping

Xi Jinping (à esquerda), irmão Xi Yuanping, pai Xi Zhongxun em 1958. Foto: XI Zhongxun huace / Stanford University Press

Quando Xi Jinping visitou o pai no exílio em 1976, ambos sentados em roupas íntimas por causa do calor, o que eles fizeram? Xi Jinping recitou discursos de Mao de memória enquanto o pai assistia.

Yang Ping, que testemunhou a cena, ficou impressionado. Existe algo de revelador nessa escolha — por que, em um raro momento juntos, pai e filho passariam o tempo assim?

A resposta diz bastante sobre como funcionavam as coisas. Para Xi Zhongxun, dominar a linguagem de Mao era uma forma de proteção. Se você memorizou Mao, pode usar suas palavras como escudo e justificativa. Era capital político em uma sociedade onde citações eram moeda de poder. Mas também era uma forma de transmitir ao filho: “Isso é como você sobrevive. Isso é como você serve ao Partido.”

Era como um catecismo — você memoriza os textos antigos porque sua salvação depende disso.

A família Xi era conhecida por sua disciplina brutal mesmo entre a elite do Partido. Preocupados que os filhos se tornassem mimados e distantes das massas, Xi Zhongxun mantinha uma casa ascética. Todos usavam a mesma água do banho para economizar. As crianças usavam roupas de segunda mão. Xi Jinping cresceu ouvindo histórias revolucionárias do pai “até que bolhas apareciam nas orelhas”, como ele mesmo descreveria.

Mas havia também carinho nessa dureza. Xi Zhongxun dizia que Xi Jinping tinha “comido mais amargura” do que outras crianças de sua geração, e isso o tornava especial — tinha “material de primeiro-ministro”. O sofrimento tornou-se legitimidade. A dor tornou-se promessa.

Mesmo analisando toda a história, fica essa questão que não sai da cabeça: Xi Zhongxun tinha motivos de sobra para se voltar contra o Partido. Ele foi preso duas vezes, quase enterrado vivo por seus próprios camaradas, perdeu oito anos sem ver a família, foi torturado até perder a audição, viu uma filha se suicidar. Durante 16 anos, de 1962 a 1978, ele foi pária político, forçado a escrever infindáveis autocríticas sobre seus supostos crimes.

E ainda assim, ele nunca se rebelou. Nunca perdeu a fé.

Torigian descobriu algo notável nos arquivos: durante esses anos de perseguição, Xi Zhongxun não apenas aceitou as acusações — ele forçou-se a acreditar nelas. Escreveu autocríticas tentando convencer-se de que talvez o Partido estivesse certo, talvez o problema fosse ele, seu individualismo burguês infiltrando-se, sua vigilância revolucionária falhando.

Era terapia às avessas: em vez de processar o trauma, você o internaliza como evidência de sua própria falha moral.

Quando amigos reclamavam do Partido para Xi Zhongxun, ele respondia contando o quanto ele mesmo havia sofrido, minimizando as queixas deles: “Tenho certeza de que você pelo menos não foi acorrentado e espancado.” Era uma forma de manipular a política do sofrimento — usar sua própria dor para defender o sistema que a causou.

A Segunda Chance

Xi Zhongxun e Xi Jinping no Condado de Buluo, Guangdong, c. 1979-1981

Em abril de 1978, Xi Zhongxun foi enviado para Guangdong — ainda não totalmente reabilitado (isso só aconteceria em 1980), mas de volta ao trabalho. Três meses depois, viajou para Sha Tau Kok, na fronteira com Hong Kong, onde a Rua Chung Ying era controlada de um lado pela China continental e do outro por Hong Kong.

Existe um contraste imenso aqui que deve ter sido chocante de presenciar. Do lado capitalista, os negócios prosperavam. Do lado comunista, prédios abandonados, mato crescendo, desolação. “A Libertação aconteceu há quase 30 anos”, Xi disse, atordoado. “Aquele lado é próspero, mas do nosso lado, tudo é miserável.”

Ele apoiou a criação das Zonas Econômicas Especiais — embora, curiosamente, inicialmente não apoiasse o sistema de responsabilidade doméstica que daria às famílias camponesas o direito de cultivar suas próprias terras. Susan Blumberg-Kason, ao resenhar o livro de Torigian para a revista Cha, nota esta contradição fascinante: Xi era um reformista, mas sua aversão visceral ao caos o tornava cauteloso.

Tem outro fato surpreendente que Torigian descobriu e que muda um pouco como vemos essa história: não foi Deng Xiaoping quem inicialmente defendeu as ZEEs — foi Hua Guofeng, o sucessor imediato de Mao, posteriormente apagado da história oficial. Deng recebeu o crédito, mas não esteve presente na maioria das reuniões cruciais que aprovaram o projeto.

A história, como sempre, é reescrita pelos vencedores.

Os “Frienemies” do Partido: Deng, Xi e a Dança do Poder

Selos postais de Xi Zhongxun, Yantai, China, outubro de 2013 – Reuters

A relação entre Xi Zhongxun e Deng Xiaoping exemplifica bem o que Torigian chama de “frienemies” — inimigos que também são amigos, rivais que ainda assim devem colaborar porque o Partido assim exige.

Nos anos 1950 e início dos 1960, havia tensões. Xi liderava o Bureau do Noroeste; Deng, o do Sudoeste. Eles discordavam sobre como lidar com o Tibete — Xi favorecia o Panchen Lama e uma transformação socialista mais rápida; Deng achava que precisavam trabalhar com o Dalai Lama, reconhecendo sua influência.

Quando Gao Gang caiu em 1954, foi Deng quem leu as autocríticas de Xi Zhongxun e o interrogou. Décadas depois, Deng diria: “Protegemos certas pessoas e as promovemos, incluindo Xi Zhongxun.” Estava se creditando por ter salvado Xi — embora Xi provavelmente não tenha vivido aquele processo como salvamento.

Em 1962, quando Xi foi purgado, Deng Xiaoping instigou Yan Hongyan a denunciá-lo. Nos anos 1980, quando Xi retornou à liderança em Pequim, esperava-se que se tornasse secretário-geral do Partido. Em vez disso, foi Hu Yaobang — menos prestigiado, mas mais confiável aos olhos de Deng.

E ainda assim, eles trabalharam juntos. Porque é assim que o Partido funciona: você pode odiar alguém, pode ter sido prejudicado por alguém, mas ainda precisa cooperar. Faccionalismo é tabu. Formar pequenos grupos é traição. Então você dança a dança — sorri, colabora, espera sua chance.

Quadros do partido em uma viagem de trabalho em 1958: Premier Zhou Enlai (2º da direita), depois Vice-Premier Xi Zhongxun (3º da direita), depois governante Deng Xiaoping (6º da direita) Foto: XI Zhongxun huace / Stanford University Press

Mas no final dos anos 1980, Xi Zhongxun estava cada vez mais infeliz com o estilo autocrático de Deng. Ele ficou aborrecido com o tratamento dado a Hu Yaobang quando este foi purgado em 1987 — e Xi teve que fazer um discurso dizendo coisas terríveis sobre Hu que ele não acreditava, elogiando Deng como líder coletivo quando sabia que Deng era tudo menos isso.

E então veio Tiananmen, em 1989. Xi Zhongxun estava profundamente infeliz com o massacre, mas não se manifestou publicamente. Porque apesar de tudo — apesar das torturas, das purgas, das mentiras —, Xi Zhongxun ainda acreditava que o Partido era maior que qualquer um, incluindo ele mesmo.

O Paradoxo Xi Jinping: Ideais e Poder

A família Xi foi severamente perseguida durante a Revolução Cultural, mas Xi Jinping ainda acreditava que o partido era a saída para a China. Fonte da imagem: Dazhi Image

Quando Xi Jinping finalmente chegou ao poder em 2012, trouxe consigo uma obsessão herdada do pai: evitar o colapso do Partido como aconteceu na União Soviética. Sua resposta foi o conceito de “auto-revolução” — a ideia de que o Partido deve “ousar virar a lâmina para dentro”, engajar-se em purgas e auto-exame contínuo para manter sua “pureza” e “juventude eterna”.

Victor Shih, cientista político da UC San Diego, especula que a lição que Xi Jinping aprendeu com a Revolução Cultural foi simples: certifique-se de estar do lado vencedor das lutas políticas para poder impor sua vontade aos outros.

Mas Torigian argumenta que isso simplifica demais a questão. Xi Jinping não é apenas um pragmático cínico acumulando poder para se proteger. Nem é apenas um idealista ingênuo. Ele é ambos simultaneamente — como Stalin era ambos.

“Xi Jinping tem um senso saudável de ambição pessoal”, diz Torigian, “mas não acho que ele diferencie isso dos interesses do Partido. Ele quase se vê como um avatar dos interesses do Partido. Ele está dentro de uma máquina apertando todos os botões, mas a máquina em si é um dispositivo útil para o Partido alcançar seus objetivos.”

O que é bom para Xi é bom para o Partido. O Partido precisa de um núcleo. O núcleo impõe disciplina e coesão em pessoas que podem ser suscetíveis à corrupção, ao individualismo, ao materialismo, à “evolução pacífica” ocidental. E ele está lá para impedir isso — por isso precisa do poder que concentrou.

A Herança Custosa

Xi Zhongxun (centro) e Xi Jinping (direita).

Tem uma ironia cruel nessa história toda: Xi Jinping continua a venerar o Partido e considera qualquer crítica ao seu histórico como “niilismo histórico” — heresia ideológica. Para confrontar a história honestamente, ele teria que demolir a pretensão de que a Revolução Comunista Chinesa foi uma força largamente benigna. Isso trairia o legado de todos aqueles que, como seu pai, devotaram suas vidas à causa revolucionária de Mao.

Então Xi está preso: não pode olhar honestamente para o passado sem trair a memória do pai que sofreu por esse passado.

O governo produziu uma série de TV sobre Xi Zhongxun. Torigian assistiu com entusiasmo — havia passado anos estudando esse homem. Mas ficou desapontado. A série não tinha “garra”, não tinha “senso de perigo”. Era sentimental, cheia de monólogos. “A revolução era quase uma festa de jantar, virando a frase de Mao de cabeça para baixo”, diz ele. “Deveria ter sido mais inspirador que meu livro, que tem todas as guerras e tudo. Eu meio que entendo Xi Jinping quando leio as páginas que escrevi, mas não consegui entendê-lo assistindo àquela série de TV.”

É uma ironia triste. O Partido tem material incrível — histórias de sacrifício genuíno, de idealismo, de pessoas que realmente acreditavam que estavam construindo um mundo melhor. Mas está com tanto medo de confrontar as partes sombrias dessa história que não consegue tornar as partes heroicas realmente convincentes.

Orville Schell, que observou Xi Jinping de perto em viagens oficiais, descreveu a expressão do líder chinês como uma máscara impenetrável — “um leve sorriso de Mona Lisa permanentemente estampado no rosto, impossível de decifrar”. Não importa o quanto Joe Biden tentasse ser caloroso e pessoal, Xi não cedia um milímetro. “É como observar uma estátua”, disse Schell. Nenhuma intimidade, nenhuma vulnerabilidade permitida.

Essa máscara foi forjada nas “sessões de luta”, nas cavernas de Shaanxi, nas oito rejeições, na decisão diária de continuar acreditando em um sistema que o destruiu.

O Dilema da Sucessão

O político provincial Xi Jinping, atrás do pai Xi Zhongxun, da filha Xi Mingze, da esposa Peng Liyuan por volta de 2000. Foto: IMAGO

Xi Jinping quebrou uma tradição crucial estabelecida por Deng Xiaoping: a designação clara de sucessores. Deng havia criado um sistema em que cada líder supremo nomeava seu herdeiro no início do segundo mandato, garantindo transições ordenadas.

Xi não fez isso. Por quê?

Nomear um sucessor minaria sua autoridade imediatamente. Uma vez anunciado o próximo líder, ele se tornaria um “pato manco” enquanto a elite começa a cultivar laços com o sucessor. Escolher um aliado significa não escolher outros, alienando tenentes importantes.

Mas a falta de mecanismo claro cria incerteza perigosa. Quando Xi não estiver mais no poder, diferentes facções de seus seguidores provavelmente lutarão pelo cargo máximo. A própria história que Xi venera mostra os perigos disso: Mao lançou a Revolução Cultural em parte para atacar seu herdeiro aparente, Liu Shaoqi.

Xi está criando as condições para exatamente o tipo de caos que diz querer evitar.

Taiwan

Joseph Torigian, em entrevista à LRT lituana, disse algo que vale a pena prestar atenção: “Xi Jinping tem duas motivações concorrentes. Uma é que não há nada mais emocional para ele do que a ‘reunificação’ da China com Taiwan. Mas ele também não quer tomar nenhuma medida que ponha em perigo a estabilidade do Partido, e uma guerra por Taiwan e perder seria uma dessas coisas.”

Então, se Xi acha que a China está ficando mais forte e os EUA estão enfraquecendo, ele pode se dar ao luxo de esperar. Por que “reunificar” agora se você pode fazê-lo mais tarde a um custo menor?

“Mas como a invasão russa da Ucrânia mostra”, Torigian adverte, “quando regimes autoritários acham que podem se safar, eles agem.”

A Pergunta Que Fica

O adolescente Xi Jinping em uma visita domiciliar a Pequim durante seu tempo no interior em 1972. Foto: Xinhua / IMAGO

Olho para Xi Jinping e vejo um homem preso entre duas lealdades impossíveis: à memória do pai que sofreu pelo Partido, e à verdade histórica sobre o que esse Partido fez com sua família. Ele escolheu a primeira. E essa escolha — feita por um menino de nove anos que viu o pai desaparecer, que foi humilhado e enviado ao exílio, mas que nunca deixou de acreditar — está moldando o destino de 1,4 bilhão de pessoas e influenciando a ordem global que todos habitamos.

A pergunta não é se Xi é produto de sua história. Isso é óbvio demais. A questão é: quantas gerações mais a China precisará esperar até que surja um líder sem essa bagagem, livre para olhar honestamente para o passado sem trair a memória daqueles que sofreram por ele?

Enquanto essa resposta não vem, o ciclo continua. A revolução devora seus filhos, que crescem para proteger o sistema que os devorou. É uma tragédia familiar que se tornou tragédia nacional — e que pode ainda se tornar algo maior, dependendo das escolhas que Xi Jinping fizer nos anos que lhe restam no poder.

Talvez a maior ironia seja esta: Xi Jinping fala constantemente sobre quebrar “os ciclos dinásticos” que atormentaram a China por milênios através de “auto-revolução” contínua. Mas ao concentrar tanto poder em si mesmo sem designar sucessor, ao recusar-se a confrontar honestamente o passado, ele pode estar plantando exatamente as sementes do colapso que teme.

E quando — não se, mas quando — esse momento chegar, não será porque o Partido não foi vigilante o suficiente, não foi puro o suficiente, não foi disciplinado o suficiente. Será porque sistemas construídos sobre mentiras sobre o passado acabam colidindo com a realidade do presente.

A história de Xi Zhongxun e Xi Jinping não é apenas sobre China. É sobre o custo humano do idealismo transformado em fanatismo, sobre como o trauma pode ser transmitido através de gerações, sobre como instituições que exigem que você coloque seus interesses acima de tudo — inclusive da verdade, inclusive de sua família, inclusive de sua própria humanidade — inevitavelmente criam líderes que não conseguem distinguir entre lealdade e servidão, entre força e rigidez, entre preservação e paralisia.


Artigo baseado em:

Torigian, J. (2025). “The Party’s Interests Come First: The Life of Xi Zhongxun, Father of Xi Jinping.” Stanford University Press. Disponível em: https://www.sup.org/books/history/partys-interests-come-first

Prašmantas, S. (2025). “Nuo tremties ir gėdos iki pasaulio galingiausiųjų: ką Xi šeimos kančios sako apie Kiniją” [Do exílio e da vergonha aos mais poderosos do mundo: o que o sofrimento da família Xi diz sobre a China]. LRT. Disponível em: https://www.lrt.lt/naujienos/pasaulyje/6/2764240/nuo-tremties-ir-gedos-iki-pasaulio-galingiausiuju-ka-xi-seimos-kancios-sako-apie-kinija

Schneider, J. & Chow, P. (2025). “Xi Zhongxun’s Second Act: Power, Purges, and the Education of Xi Jinping.” ChinaTalk. Disponível em: https://www.chinatalk.media/p/xi-zhongxuns-second-act

Blumberg-Kason, S. (2025). “The Party’s Interests Come First: Joseph Torigian’s The Life of Xi Zhongxun, Father of Xi Jinping” [Review]. Cha: An Asian Literary Journal. Disponível em: https://chajournal.com/2025/07/16/xi-zhongxun