A história do Helicoide começa com uma ironia amarga. Nos anos 1950, durante o governo ditatorial de Marcos Pérez Jiménez, a Venezuela sonhava alto. O país vivia o boom petroleiro e queria mostrar ao mundo sua modernidade. O projeto era audacioso: um megacomplexo comercial em forma de espiral, desenhado pelos arquitetos Pedro Neuberger, Dirk Bornhorst e Jorge Romero Gutiérrez. Seriam 300 butiques, oito cinemas, um heliporto, hotel cinco estrelas, parque, clube e até um show palace.
A construção começou em 1956 na Roca Tarpeya, em Caracas. Custaria US$ 10 milhões na época — equivalente a US$ 90 milhões hoje. A rampa de 4 quilômetros em espiral permitiria que os clientes dirigissem até a porta das lojas. Era o futuro, ou pelo menos a visão venezuelana dele. O projeto chegou a aparecer na capa de revistas internacionais e foi destaque na exposição “Roads” do MoMA em 1961.
Mas o futuro nunca chegou. Em 1958, a ditadura de Pérez Jiménez caiu. A construção parou. O edifício ficou abandonado, deteriorando-se lentamente. Nos anos 1970, tornou-se abrigo para moradores de rua. Entre 1979 e 1982, 500 famílias ocuparam o prédio após chuvas torrenciais. Era já um prenúncio do que viria: a decadência de um sonho transformado em pesadelo.
A Transformação em Centro de Tortura

Em 1984, algo mudou. A Dirección de los Servicios de Inteligencia y Prevención (DISIP) ocupou o edifício deteriorado. Mas foi com a ascensão do chavismo que o Helicoide se transformou definitivamente no que organizações de direitos humanos chamam de “o maior centro de tortura da América Latina”.
Sob Hugo Chávez, a DISIP foi transformada no Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin). Com Nicolás Maduro, especialmente após 2013, o Helicoide consolidou-se como instrumento central da repressão política. O sexto óvalo do prédio, sob controle do Sebin, abriga celas, escritórios, quartos de isolamento e espaços que simulam banheiros — mas que, na verdade, são usados para torturas.
Os relatos são aterradores. Lorent Saleh, ativista de direitos humanos detido por quatro anos após os protestos de 2014, descreveu o lugar como marcado por “ruído, mugre, hacinamiento, depravación”. Joshua Holt, missionário mormão americano, ficou preso de 2016 a 2018, perdeu 27 quilos, teve bronquite, sarna, cálculos renais e hemorróides sem atendimento médico adequado. Sua esposa foi torturada para forçar uma confissão contra ele. “Foi o mais próximo do inferno”, disse Holt após ser libertado.
Víctor Navarro, ex-preso político que criou uma experiência de realidade virtual sobre o Helicoide, define o local como um espaço onde as pessoas são tratadas como baratas. Na simulação que desenvolveu, o visitante é cercado por insetos e encolhe até o nível deles. “Eles fazem você se sentir uma barata”, resumiu.
Detentos relatam tortura física, violência psicológica, isolamento absoluto, uso forçado de medicamentos psiquiátricos como sedativos, ameaças constantes de morte. Relatam sacos plásticos sobre a cabeça para asfixia, choques elétricos, espancamentos, celas minúsculas onde não se pode mover.
As Mentiras de Nicolas Maduro
E aqui chegamos à parte que mais me revolta. Enquanto essas barbaridades aconteciam — documentadas por organizações como a ONU, Human Rights Watch, Foro Penal —, líderes políticos insistiam que tudo não passava de “narrativa”.
Em maio de 2023, durante a visita de Maduro ao Brasil, o presidente Lula disse textualmente: “Contra a gente se constrói narrativas. Nicolás Maduro sabe muito bem a narrativa que construíram contra a Venezuela. Vocês sabem a narrativa que construíram sobre o autoritarismo e a antidemocracia. Vocês têm como meios desconstruir essa narrativa.”
Leio e releio essa frase. “Narrativa”. Como se os relatórios da missão internacional independente da ONU de setembro de 2020 fossem ficção. Como se as acusações de Maduro e outros por graves violações de direitos humanos não tivessem base. Como se as mais de 800 pessoas presas politicamente fossem invenção.
Lula seguiu: “Se eu quiser vencer uma batalha, eu preciso construir uma narrativa para destruir o meu potencial inimigo. Você sabe a narrativa que se construiu contra a Venezuela, de antidemocracia e do autoritarismo.” E completou, tentando justificar-se no dia seguinte: “O que eu disse, na verdade, é que desde que o [Hugo] Chávez tomou posse, foi construída narrativa contra Chávez em que ele é um demônio, a partir daí começa a jogar todo mundo contra ele. Foi assim comigo, a quantidade de mentira nos meus processos.”
A equiparação é absurda. Processos judiciais controversos no Brasil não se comparam a um sistema organizado de tortura e perseguição política. Mas o que mais incomoda é a recusa em reconhecer a realidade. A Venezuela ocupava a 151ª posição de 165 países no Democracy Index. Estava nas últimas colocações do ranking de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras. Isso não é “narrativa” — são dados.
Maduro também mentiu descaradamente. Em entrevista de 2019 à jornalista María Elvira Salazar — hoje congressista americana —, ele negou veementemente que tivesse militares cubanos em sua segurança pessoal. “É uma fábula que na Venezuela tenham militares cubanos, é mentira”, afirmou. “No território venezuelano há quarenta mil médicos cubanos. Existem médicos, enfermeira, jogadores de beisebol, esportistas, treinadores de beisebol, de futebol, isso tem bastante. Bailarinos, bailarinas, atores de teatro, é só o que tem aqui. Militares não têm.”
A mentira foi exposta brutalmente em janeiro de 2026, quando o regime cubano admitiu que 21 agentes secretos e 11 militares cubanos morreram durante a operação americana que capturou Maduro. Eles compunham seu anel de segurança pessoal. Aqueles “bailarinos e atores de teatro” eram, na verdade, forças especiais cubanas.
A Pressão Americana e o Anúncio de Fechamento
No dia 3 de janeiro de 2026, numa operação militar ousada e controversa, forças americanas capturaram Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores em Caracas. O ditador foi levado para Nova York para enfrentar acusações de narcoterrorismo e tráfico de drogas. Delcy Rodríguez, sua vice-presidente, assumiu como presidente interina.
E foi exatamente sob pressão imensa dos Estados Unidos que, finalmente, algo mudou.
No dia 8 de janeiro, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão de Delcy, anunciou a libertação de “um número significativo” de presos. No dia 30 de janeiro de 2026, durante a abertura do ano judicial no Supremo Tribunal de Justiça, Delcy Rodríguez anunciou oficialmente uma anistia geral e o fechamento do Helicoide.
“Decidimos promover uma lei de anistia geral que cubra todo o período de violência política de 1999 ao presente”, declarou Delcy. O Helicoide, segundo ela, será transformado em “um centro social, deportivo, cultural e comercial destinado à família policial e às comunidades vizinhas”.
Segundo a ONG Foro Penal, a Venezuela mantinha 711 presos políticos até então. O regime chavista afirmou ter libertado mais de 400 pessoas, mas organizações de direitos humanos contestam esses números. A Foro Penal confirmou apenas 302 libertações verificadas até 29 de janeiro. A discrepância revela a falta de transparência do processo.
María Corina Machado, líder opositora e Nobel da Paz, foi clara: o processo “não é voluntário” e “responde à pressão” do governo dos Estados Unidos. Sem a captura de Maduro e a intervenção americana, é improvável que o Helicoide fosse fechado ou que presos políticos fossem libertados.
Fontes
Sobre a história e condições do Helicoide:
- Infobae: “Cómo es el Helicoide, la cárcel más atroz del régimen venezolano que será reconvertida en un centro social, cultural y comercial” (31/01/2026)
- CNN: “El Helicoide: The architectural wonder that now sums up Venezuela’s spiral into despair” (2019)
- The Nation: “Torture in the Heart of Venezuela” (29/11/2022)
- NPR: “Virtual reality offers a chilling 3D look inside Venezuela’s spiraling prison” (23/03/2024)
- Gazeta do Povo: “El Helicoide: o shopping que virou centro de tortura chavista” (dezembro 2024)
- DOAJ: “De príncipe a mendigo: La triste historia del Helicoide de la Roca Tarpeya” (01/12/2024)
Sobre o anúncio de fechamento:
- ISTOÉ: “Venezuela: Delcy Rodríguez anuncia fechamento de prisão política” (31/01/2026)
- Gazeta Brasil: “Delcy Rodríguez anuncia anistia geral na Venezuela e fechamento de prisão em Caracas” (30/01/2026)
- Terra: “Delcy Rodríguez anuncia anistia a ‘presos políticos’ e fechamento de centro de tortura na Venezuela” (31/01/2026)
- Al Jazeera: “Venezuela’s acting President Delcy Rodriguez announces prisoner amnesty” (31/01/2026)
- NPR: “Venezuela announces amnesty bill that could lead to release of political prisoners” (31/01/2026)
Sobre as declarações de Lula:
- Infobae: “Pese a los informes de torturas y presos políticos, Lula da Silva defendió a la dictadura de Nicolás Maduro: ‘Es una narrativa construida'” (29/05/2023)
- Governo Federal – Planalto: “Entrevista coletiva do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília” (30/05/2023)
- CNN Brasil: “Venezuela: relembre os posicionamentos de Lula sobre Maduro” (03/08/2024)
- Metrópoles: “Lula defende Maduro e diz que Chávez foi alvo de narrativas que o demonizaram” (31/05/2023)
- Estado de Minas: “Lula diz que ditadura na Venezuela é ‘narrativa’ e critica bloqueio” (30/05/2023)
Sobre Maduro e María Elvira Salazar:
- O Antagonista: “Maduro já negou ter proteção militar cubana” (janeiro 2026)
- Infobae: “El día que el dictador Nicolás Maduro negó la presencia de militares cubanos en su anillo de seguridad: ‘Son todos venezolanos'” (07/01/2026)
- Semana: “‘Era mentira’: el duro mensaje de María Elvira Salazar a Nicolás Maduro” (janeiro 2026)
- CiberCuba: “María Elvira exige liberar a los presos políticos en Venezuela: ‘EE.UU. no se quedará de brazos cruzados'” (07/01/2026)
