Gramsci: classe dominante e classe dirigente

Existe uma distinção que Gramsci construiu que trata da diferença entre quem domina economicamente e quem dirige culturalmente e moralmente uma sociedade. Para o italiano Antonio Gramsci, são coisas diferentes, e entender isso muda bastante a forma como a gente lê a política.

Gramsci escreveu boa parte do que se sabe sobre isso preso numa cela da Itália fascista, entre 1929 e 1935. Os textos ficaram conhecidos como os Cadernos do Cárcere, e lá ele desenvolveu uma ideia que vai além do marxismo mais cru: o poder não se mantém só pela força. Ele se mantém, acima de tudo, pelo consentimento.

Dominar e dirigir são coisas diferentes

A supremacia de um grupo social, para Gramsci, se manifesta de duas formas: como domínio e como direção moral e intelectual. Um grupo social é dominante dos grupos adversários, que tende a submeter com a força armada se necessário, e é dirigente dos grupos afins e aliados.

Traduzindo: a classe dominante é quem controla a base econômica, os meios de produção, o dinheiro. A classe dirigente é quem dá a direção cultural, moral e intelectual à sociedade. No capitalismo, a classe que detém o capital geralmente quer ser as duas coisas ao mesmo tempo. Quando consegue, Gramsci chama isso de hegemonia.

Gramsci utiliza o termo hegemonia para mostrar como a classe dominante constrói e mantém sua dominação política e cultural sobre os demais grupos sociais, com base no consenso e na coerção, quando necessária.

O ponto central da tese é que quando a coerção é necessária, a hegemonia já está falhando. O poder de verdade é aquele que não precisa de força, porque as pessoas já internalizaram os valores da classe que manda como se fossem os próprios valores. Como se fosse senso comum. Como se fosse natural.

Mídias televisivas, rádios, propagandas publicitárias, bens de consumo, escolas e toda a indústria cultural vão direcionando e realinhando os desejos, vontades, medos e interesses das classes sociais dominadas para que consintam com a dominação.

Você pode dirigir sem ainda ter o poder

Existe um detalhe na tese de Gramsci que muita gente passa reto: um grupo social pode e deve ser dirigente antes de conquistar o poder governamental. A luta pelo poder começa na cultura, nas ideias, no chamado senso comum, antes de chegar na economia ou no Estado. E isso tem uma consequência prática muito importante para entender a política.

Para Gramsci, não bastava vencer; era necessário convencer. Era possível que um grupo político, mesmo sem estar no poder, se transformasse numa classe dirigente da sociedade, desde que soubesse transformar os seus interesses em interesses universais da sociedade.

O Brasil entre 2013 e 2018

Pra entender tudo isso de forma mais concreta, vale olhar com calma para o que aconteceu na política brasileira nesse período, porque é um dos exemplos mais ricos e próximos da gente.

Até 2013, o PT dominava eleitoralmente o Brasil há mais de uma década. Tinha o controle do governo, do orçamento, das políticas públicas. Era dominante politicamente. Mas havia uma disputa acontecendo debaixo dos panos, no campo que Gramsci chamaria de sociedade civil: igrejas evangélicas crescendo e se organizando politicamente, grupos nas redes sociais disseminando um discurso anticorrupção e antipolítica, canais do YouTube e páginas de Facebook construindo uma nova narrativa moral sobre o Brasil. Nada disso era coordenado por um partido ou uma liderança central. Era uma guerra de posições, para usar o próprio vocabulário gramsciano.

O avanço do conservadorismo foi facilitado pela atuação de lideranças políticas conservadoras, a mobilização de movimentos sociais de direita e o uso eficaz das mídias tradicionais e digitais para difundir ideologias conservadoras. Só que antes de qualquer liderança consolidada, antes de qualquer candidato forte, o terreno cultural já estava sendo preparado. A ideia de que “todos os políticos são iguais”, de que havia uma elite corrupta mandando no país, de que o problema era moral antes de ser econômico, tudo isso foi se tornando senso comum ao longo de anos.

Gramsci alertava que, numa crise, abria-se o campo às soluções de força e à atividade de potências obscuras representadas pelos homens providenciais ou carismáticos. O que aconteceu em 2018 foi exatamente isso: uma candidatura que não tinha partido relevante, não tinha estrutura, não tinha tempo de televisão significativo, mas tinha algo mais poderoso naquele momento, tinha a direção moral e intelectual de uma parcela importante da sociedade. O candidato não criou esse sentimento. Ele foi o produto político de uma hegemonia cultural que já estava construída.

Isso é a distinção de Gramsci funcionando em tempo real. O movimento chegou ao poder governamental depois, muito depois, de já ter conquistado a direção cultural. Quem apenas olhava para os partidos e para as pesquisas eleitorais não entendeu nada do que estava acontecendo até que já era tarde. Gramsci teria entendido.

Vale notar que o mesmo raciocínio funciona para o outro lado. O PT também construiu sua hegemonia cultural muito antes de chegar ao governo em 2002, através dos sindicatos, das pastorais, dos movimentos sociais, das universidades. Primeiro dirigiu, depois dominou. A lógica é a mesma.

Hegemônico não é quem manda ou ganha eleições, mas quem consegue apresentar uma proposição crítico-racional para a sociedade. A luta ideológica é mais decisiva que a eleitoral.

Essa é a contribuição mais desconfortável de Gramsci, porque ela obriga qualquer pessoa que pensa sobre política a encarar que convicções que achamos que são nossas, que parecem senso comum, muitas vezes têm história e interesse por trás. Não estou dizendo que as convicções são falsas, mas que elas não surgem do nada. Alguém construiu o ambiente em que elas pareciam óbvias.

A crise de hegemonia se manifesta quando, ainda que mantendo o próprio domínio, as classes sociais politicamente dominantes não conseguem mais ser dirigentes de todas as classes sociais, não conseguem mais resolver os problemas de toda a coletividade. Quando essa crise aparece, o terreno fica aberto. Qualquer grupo que consiga oferecer uma nova direção moral e intelectual convincente tem uma chance real de mudar as estruturas de poder, independentemente de qual seja o seu tamanho eleitoral no momento.


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