Depois de 25 anos sentados à mesa de negociação, finalmente assinamos. O acordo entre União Europeia e Mercosul saiu do papel neste sábado, 17 de janeiro de 2026, em Assunção, no Paraguai. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, celebrou o momento como histórico. Do lado de cá, o governo tratou como vitória diplomática. Mas o que, de fato, acabamos de assinar? E mais importante: o que isso muda para nós?
O Que É Este Acordo
Estamos falando da criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. Juntamos mais de 780 milhões de pessoas e um PIB combinado que representa cerca de 20% do PIB global. O princípio é simples: reduzir ou eliminar tarifas alfandegárias entre os blocos para facilitar o comércio de bens e serviços. A União Europeia vai eliminar tarifas sobre cerca de 95% das importações do Mercosul gradualmente. Do nosso lado, vamos eliminar tarifas sobre 91% dos produtos europeus em prazos escalonados.
Não é uma abertura imediata. É gradual, com cronogramas diferentes para setores sensíveis. A UE manteve cotas para produtos agrícolas que ameaçam seus produtores – carne bovina, frango, açúcar. Nós preservamos prazos mais longos para setores industriais vulneráveis. Peças automotivas, por exemplo, terão suas tarifas de 35% eliminadas linearmente ao longo de dez anos. É um acordo negociado linha por linha, produto por produto, com salvaguardas e mecanismos de proteção embutidos no texto.
Além das tarifas, o acordo inclui compromissos em propriedade intelectual, compras governamentais, sustentabilidade ambiental e desenvolvimento. A Europa prometeu cooperação técnica e financeira para apoiar a implementação. Há cláusulas de reequilíbrio: se medidas internas da UE comprometerem vantagens obtidas pelo Mercosul, podemos renegociar concessões. A estrutura institucional prevê um Conselho Conjunto de ministros, um Comitê Conjunto de funcionários sêniores, um Comitê Parlamentar Conjunto e fóruns para sociedade civil.
Benefícios para o Mercosul
Para o bloco sul-americano, o acordo representa acesso privilegiado a um mercado de 450 milhões de pessoas com alto poder aquisitivo. Cerca de 99% das exportações agrícolas do Mercosul terão algum nível de liberalização tarifária na Europa. Produtos como suco de laranja, café solúvel, frutas, óleos vegetais ganham condições melhores de entrada. O Brasil exportou o equivalente a 24 bilhões de euros em produtos agropecuários para a UE em 2024, representando 43% do total das exportações do Mercosul para o bloco europeu.
As cotas para carnes são modestas quando comparadas à produção total da UE. A cota para carne bovina fresca (54,5 mil toneladas) representa apenas 1,5% da produção total de carne bovina europeia. Para frango (180 mil toneladas), representa 0,1% da produção total. Mesmo assim, são aberturas estratégicas para produtores competitivos do Mercosul.
Do ponto de vista geopolítico, o acordo oferece ao Mercosul uma alternativa estratégica num momento de fragmentação global. A dependência excessiva da China como destino de commodities criou vulnerabilidades. A Europa surge como parceiro com maior previsibilidade institucional e menor volatilidade política que outros mercados. É uma forma de diversificar destinos, reduzir exposição a choques externos e ampliar margem de manobra diplomática num mundo cada vez mais dividido entre Estados Unidos e China.
O tratado também funciona como âncora de estabilidade regulatória. Empresas que operam sob regras claras, previsíveis e modernas tendem a atrair mais investimentos. O acordo sinaliza compromisso com padrões internacionais de comércio num contexto em que o protecionismo avança em várias frentes.
Benefícios para o Brasil
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) projeta crescimento de 0,46% no PIB brasileiro até 2040, equivalente a US$ 9,3 bilhões. É um ganho modesto, mas superior ao estimado para a União Europeia (0,06%) e para os demais países do Mercosul (0,20%). O Brasil seria o maior beneficiado dentro do bloco sul-americano porque tem economia mais diversificada e pode capturar ganhos em mais setores.
Os investimentos devem crescer 1,49% em relação ao cenário sem o acordo. As exportações brasileiras para a Europa podem acumular ganhos de até US$ 11,6 bilhões, enquanto as importações cresceriam principalmente até 2034, somando US$ 12,8 bilhões, com leve desaceleração depois. Na balança comercial, o saldo positivo seria de US$ 302,6 milhões.
O agronegócio é o protagonista claro. A eficiência do produtor rural brasileiro superou o protecionismo europeu. Setores como café, frutas, carnes e óleos vegetais ganham acesso melhorado a mercado sofisticado e disposto a pagar mais por qualidade. O Banco Mundial aponta que exportações podem aumentar 2,5% em 2040, impulsionadas principalmente por produtos agrícolas.
Para o consumidor brasileiro, há expectativa de produtos europeus mais baratos – vinhos, queijos, azeites, chocolates, automóveis. A tarifa atual sobre produtos lácteos europeus é de 28%, sobre chocolates e confeitaria é de 20%, sobre vinhos é de 27% e sobre destilados chega a 35%. Mas a queda de preços não será imediata nem automática. Depende de câmbio, custos logísticos, impostos internos e margens comerciais. O benefício chegará gradualmente e será mais sentido no médio e longo prazo.
Um ponto crucial: o Brasil abre seu mercado de compras governamentais federais, avaliado em US$ 250 bilhões anuais, para empresas europeias. Isso permite que companhias da UE participem de licitações em igualdade de condições com empresas brasileiras, um acesso que nem Estados Unidos nem China possuem atualmente.
Benefícios para a União Europeia
Para a Europa, o acordo é menos sobre comércio e mais sobre geopolítica. A presidente Ursula von der Leyen deixou isso claro: com Trump de volta à Casa Branca, com tarifas arbitrárias e unilateralismo comercial, a Europa precisa de parceiros confiáveis. O Mercosul oferece acesso a matérias-primas estratégicas para a transição energética verde, segurança alimentar e diversificação de cadeias de suprimento.
A UE exportou 55 bilhões de euros para o Mercosul em 2024. O acordo vai economizar mais de 4 bilhões de euros por ano em tarifas eliminadas para exportadores europeus. Cerca de 60 mil empresas europeias exportam para o Mercosul, sendo mais de 30 mil pequenas e médias empresas. Com o tratado, terão condições melhores de competição.
Setores industriais europeus são os grandes beneficiados. Tarifas de 35% sobre peças automotivas, 20% sobre máquinas, 18% sobre produtos químicos e 14% sobre farmacêuticos serão eliminadas. A indústria automotiva alemã, que exportou 1 bilhão de euros em carros de passageiros apenas para o Brasil em 2024 (70% do total exportado pela UE), ganha mercado num momento em que enfrenta competição chinesa crescente e retração na Europa.
Setores agroalimentares europeus também ganham. A eliminação de tarifas do Mercosul sobre vinhos, destilados, azeite de oliva e chocolate pode aumentar exportações de alimentos da UE em aproximadamente 50%. Mais de 340 indicações geográficas europeias serão protegidas contra imitação – o maior número de IGs jamais protegido em um acordo da UE.
Do ponto de vista estratégico, o acordo também funciona como contrapeso à presença chinesa na América Latina. A China consolidou-se como maior parceiro comercial do Brasil e avança sobre a região com investimentos em infraestrutura e acordos bilaterais. A Europa busca recuperar espaço e influência num território com afinidades culturais, linguísticas e históricas. A UE já é o maior investidor no Mercosul, com 388 bilhões de euros em investimento direto estrangeiro em 2023 – o dobro dos Estados Unidos e o triplo da China.
A Dinâmica Geopolítica
Aqui está o ponto que mudou tudo. O acordo saiu da gaveta porque deixou de ser apenas desejável e passou a ser necessário. Estamos testemunhando uma reconfiguração fundamental da ordem econômica e de segurança global. O comércio internacional deixou de ser apenas instrumento de eficiência econômica e virou elemento de segurança, poder e posicionamento estratégico.
Donald Trump acelerou esse processo. Sua agenda tarifária explícita, o abandono de organizações internacionais e a definição da América Latina como zona de influência de Washington acenderam alertas na Europa e no Mercosul. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA coloca a região sob controle americano. Do outro lado, a China publicou livro branco sobre a América Latina formulando ambições de poder inéditas.
A dependência militar da Europa em relação à OTAN e aos Estados Unidos tornou-se vulnerabilidade estratégica num momento em que Washington sinaliza desengajamento. A guerra na Ucrânia expôs essa fragilidade. Países europeus estão aumentando gastos com defesa e discutindo autonomia estratégica pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O Mercosul, geograficamente distante desses conflitos, oferece parceria sem as complicações militares que caracterizam relações europeias com outras regiões.
A competição por matérias-primas críticas intensificou-se. A transição energética verde e a revolução digital dependem de lítio, nióbio, tântalo, grafite natural e terras raras. A Argentina possui a terceira maior reserva de lítio do mundo. O Brasil controla 94% da produção global de nióbio e tem reservas substanciais de grafite, níquel e terras raras. A Europa importa grande parte desses minerais da China e da Rússia. O acordo estabelece regras que restringem a capacidade dos países do Mercosul de impor impostos ou proibições de exportação sobre matérias-primas, garantindo previsibilidade de fornecimento.
O ministro da Fazenda Fernando Haddad resumiu: o acordo é “histórico sobretudo por sua importância geopolítica”. Estudos do Parlamento Europeu apontam que tanto Europa quanto América Latina são periferias militarmente fracas de uma ordem mundial dominada pelos Estados Unidos desde 1945. Ambas as regiões dependem intrinsecamente de uma ordem cooperativa multilateral e de instituições que constrangem a política de poder das grandes potências.
Para o Brasil, o acordo amplia margem de manobra estratégica. Sem depender excessivamente de Washington ou Pequim, o país opera com leque mais amplo de opções – condição essencial para preservar autonomia num mundo dividido em áreas de influência. Permite resistir a acordos bilaterais assimétricos sob pressão política ou econômica.
Histórico do Acordo
As negociações começaram em junho de 1999, na primeira Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da América Latina, do Caribe e da União Europeia, no Rio de Janeiro. O governo era de Fernando Henrique Cardoso. A expectativa inicial era de tratativas longas e difíceis. A complementaridade parecia clara: Mercosul forte no agronegócio, UE com indústria robusta.
Entre 2001 e 2004, as negociações avançaram paralelamente ao debate sobre a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). Em outubro de 2004, durante reunião em Lisboa, os blocos reforçaram a prioridade de negociar o tratado, mas nenhuma das partes ficou satisfeita. As negociações foram suspensas.
Em maio de 2010, a Comissão Europeia decidiu retomar as conversas. Em junho de 2019, durante a 14ª reunião de cúpula do G20 em Osaka, Japão, o acordo comercial foi fechado em termos preliminares. Mas a ratificação virou imbróglio. Em outubro de 2020, o Parlamento Europeu rejeitou o texto em meio a preocupações com a política ambiental de Jair Bolsonaro.
Quando Lula voltou ao cargo em 2023, houve novo dinamismo. A conclusão das negociações, em dezembro de 2024 em Montevidéu, contou com a presença de Ursula von der Leyen. Lula assumiu a presidência rotativa do Mercosul em julho de 2025 e prometeu entregar o acordo assinado ainda no mandato brasileiro. Resistências de França e Itália adiaram a assinatura várias vezes.
A pressão geopolítica aumentou. Dezenove associações empresariais europeias, representando grandes produtores industriais da UE, enviaram carta conjunta à Comissão em 2023 afirmando que “acordos de livre comércio desempenham papel vital na mitigação do impacto da agressão russa à Ucrânia e no equilíbrio de tensões e incertezas geopolíticas”. A aprovação pelo Conselho Europeu saiu em 9 de janeiro de 2026. A assinatura formal vai acontecer neste sábado, 17 de janeiro, com o Paraguai na presidência rotativa do bloco.
Impactos Positivos na Economia Brasileira
O setor mais beneficiado é o agronegócio. A redução de tarifas para produtos competitivos do Brasil abre portas num mercado de 450 milhões de consumidores com alto poder aquisitivo. Café solúvel, que hoje paga 9% de tarifa na UE, terá taxa zerada em cinco anos. Carnes bovinas e de frango ganham cotas com condições melhores. Frutas, óleos vegetais, açúcar e etanol seguem o mesmo caminho.
Para a indústria, há acesso facilitado a tecnologia europeia. Máquinas, equipamentos industriais de alta precisão e produtos químicos avançados – muitos sem similar nacional – terão tarifas eliminadas. Isso pode reduzir drasticamente o custo de investimento para fábricas brasileiras e aumentar a produtividade. O acordo estabelece salvaguardas para setores sensíveis como o automotivo, garantindo prazos de adaptação de até 15 anos para alguns produtos.
A abertura do mercado de compras governamentais é uma via de mão dupla. Enquanto empresas europeias ganham acesso a licitações brasileiras, empresas brasileiras também podem participar de contratos públicos na Europa em igualdade de condições. Isso é especialmente relevante para setores de engenharia, construção e tecnologia.
O acordo também pode fortalecer a posição do Brasil como hub para empresas europeias na América Latina. Empresas de defesa como Rheinmetall, Thales e Iveco já estabeleceram presença no país. O setor de defesa brasileiro, com políticas tributárias favoráveis e acesso a matérias-primas, atrai relocação de produção europeia. A Embraer já exporta aeronaves C-390 Millennium para Portugal, com componentes fabricados na Argentina.
Impactos Negativos na Economia Brasileira

Fonte: bloomberg
A preocupação maior está na desindustrialização. Estudos acadêmicos alertam que o acordo pode agravar processo em curso desde os anos 1980. O tratado “facilita a abertura dos mercados para a indústria avançada da Europa e fortalece o Brasil agroexportador de produtos não processados”, segundo análises da Universidade Federal do ABC e da Unicamp. Cerca de 40% dos produtos europeus deixarão imediatamente de ter cobrança de imposto de importação ao entrar no bloco.
Simulações do Ipea indicam que o acordo beneficiaria quase todos os setores do agronegócio, mas as perdas do Brasil seriam concentradas em alguns setores da indústria: veículos e peças, metais ferrosos, artigos do vestuário e acessórios, produtos de metal, têxteis, farmacêuticos, máquinas e equipamentos e equipamentos eletrônicos.
A indústria manufatureira brasileira representava cerca de 25% do PIB em 1965, atinge pico de cerca de 35% por volta de 1980 (auge da industrialização), mas depois cai drasticamente para aproximadamente 10% em 2020. Essa queda acentuada reflete a desindustrialização acelerada, agravada por abertura comercial, crises econômicas e perda de competitividade. O acordo, ao reduzir tarifas sobre produtos manufaturados europeus ao longo de 15 anos, torna mais difícil para a indústria brasileira competir. Fica mais barato importar do que produzir. A indústria química, de cosméticos e setores de maior valor agregado enfrentarão concorrência de empresas europeias mais eficientes e tecnologicamente avançadas.
O ponto das compras governamentais também gera críticas. O acordo abre concorrência para empresas europeias em licitações federais brasileiras. Lula foi enfático em declarações anteriores: “Eles querem que o governo brasileiro compre as coisas estrangeiras ao invés das coisas brasileiras”. Compras governamentais são oportunidade de pequenas e médias empresas sobreviverem e de políticas industriais funcionarem.
Estudos apontam risco de aumento do desmatamento. A demanda por produtos agrícolas pode pressionar a expansão sobre áreas florestais se não houver políticas de proteção ambiental rigorosas. O Banco Mundial alerta que o aumento da produção agrícola pode elevar desmatamento e emissões de gases de efeito estufa caso se dê pela expansão em áreas florestais. A implementação do acordo se beneficiaria de políticas que favoreçam o aumento da produtividade na agropecuária para evitar o aumento da pressão sobre as florestas.
O Acordo de Paris foi incluído como elemento essencial do tratado, o que significa que seu descumprimento pode levar à suspensão do acordo comercial. Há compromissos concretos e mensuráveis para preservar a biodiversidade de ecossistemas e combater o desmatamento. Mas críticos apontam a ausência de mecanismo de sanção vinculante para violações ambientais. A capacidade da Comissão Europeia de rastrear a origem dos produtos para distinguir entre gado criado em pastagens legais versus ilegais permanece limitada.
Há também preocupações com segurança alimentar. O uso de hormônio de crescimento 17β-estradiol, banido na UE mas ainda amplamente usado na pecuária brasileira, é um ponto sensível. Apesar da declaração da Comissão de que “qualquer produto que entre no mercado da UE deve cumprir os rigorosos padrões de segurança alimentar da UE”, uma auditoria de 2024 da DG SANTE revelou deficiências consideráveis na capacidade do Brasil de rastrear e controlar o uso do hormônio.
A Batalha política
Assinar não é ratificar. O acordo ainda precisa passar pelo Parlamento Europeu e pelos Congressos Nacionais dos países do Mercosul. Na Europa, a tramitação pode ser longa e politicamente turbulenta. França, Polônia, Áustria e outros países mantêm resistências fortes de setores agrícolas.
O acordo consiste em dois instrumentos legais separados. Primeiro, o Acordo Comercial Interino (iTA), focado exclusivamente em questões comerciais. O iTA entrará em vigor uma vez aprovado pelo Parlamento Europeu e concluído pelo Conselho por maioria qualificada. Segundo, o Acordo de Parceria UE-Mercosul (EMPA), com escopo muito mais amplo. Cobre diálogo político, cooperação, investimento e provisões ambientais além do comércio. A implementação completa requer ratificação pelos 27 Estados-membros da UE, seguindo procedimentos nacionais – processo que pode levar anos.
Para mitigar atrasos, a Comissão Europeia propôs a aplicação provisória de certas provisões do EMPA, especialmente as medidas políticas e de cooperação. A experiência passada mostra que o processo de ratificação pode ser bastante lento. O acordo UE-Canadá (CETA), por exemplo, está sendo aplicado provisoriamente desde 2017, mas apenas 17 dos 27 Estados-membros o ratificaram até agora.
Alguns partidos dentro do Parlamento Europeu estão pressionando para encaminhar o acordo ao Tribunal de Justiça, o que poderia congelar o progresso por até 18 meses. Se o texto for tratado como acordo misto, dependerá de aprovação individual de cada parlamento nacional – o que aumenta o risco de travas.
No Brasil, o Congresso Nacional precisará aprovar o tratado. Há consenso no governo, mas setores industriais podem criar resistências. A implementação completa levará mais de uma década. As tarifas cairão de forma escalonada, em cronogramas diferentes para cada setor. Os efeitos econômicos serão sentidos em ondas.
O mecanismo de “ratificação bilateral” foi criado para prevenir que o acordo seja bloqueado por disputas internas. Estabelece que, uma vez assinado, o acordo entrará em vigor país por país após ratificação nacional, em vez de entrada em vigor simultânea uma vez que o último país tenha ratificado. Essa solução pragmática compromete a amplitude da união aduaneira, mas ao mesmo tempo cria incentivos para preservá-la, porque os retardatários perderão os benefícios desfrutados pelos pioneiros.
O verdadeiro teste não está na política comercial, mas na capacidade do Brasil em realizar reformas estruturais. Acesso ao mercado europeu não se traduz automaticamente em ganhos se a indústria brasileira não estiver preparada para competir. Produtividade, inovação, redução de custos internos – tudo isso precisa avançar.
O acordo chegou num momento de inflexão da ordem econômica e geopolítica global. É uma aposta pragmática em multilateralismo quando o mundo caminha para fragmentação. Pode ser oportunidade de diversificação e modernização. Pode também aprofundar assimetrias e vulnerabilidades. O resultado dependerá das escolhas que fizermos daqui para frente.
Fontes
Instituições Governamentais e Oficiais:
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços: “Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia” (dezembro/2024)
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): “Acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia traria benefícios econômicos para o Brasil” (fevereiro/2024)
- Ipea: “Avaliação dos impactos do acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia” (PDF completo)
- Comissão Europeia: “Factsheet: EU-Mercosur Partnership Agreement”
- Comissão Europeia: “EU-Mercosur – Countries and Regions”
Parlamento Europeu e Think Tanks Europeus:
- Parlamento Europeu: “Geopolitical aspects of the EU-Mercosur agreement” – Study by Andrés Malamud and Luis Schenoni (junho/2025)
- Brussels Institute for Geopolitics: “A geopolitical strategy with domestic political costs: The EU–Mercosur Agreement” – Eliott de Smedt Day (dezembro/2025)
Análises Acadêmicas e Centros de Pesquisa:
- Banco Mundial: “Acordo Mercosul-UE: impactos na economia brasileira” – Shireen Mahdi, Cornelius Fleischhaker e Otavio Conceição (dezembro/2024)
- Agência Brasil: “Acordo Mercosul-UE inibe indústria brasileira, alertam especialistas” – com Giorgio Romano Schutte (UFABC) e Pedro Paulo Bastos (Unicamp) (junho/2023)
- Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB): “Acordo União Europeia – Mercosul: Uma nova ALCA” (agosto/2019)
- Instituto de Economia – Unicamp: “União Europeia-Mercosul: um acordo regressivo” – Giorgio Romano Schutte
Análises de Bancos e Instituições Financeiras:
