A industrialização de São Paulo

O que faz de São Paulo a maior economia da América Latina não é um acidente geográfico nem o resultado de uma decisão de governo bem planejada. É o acúmulo de apostas, contingências e choques externos que, ao longo de pouco mais de cem anos, transformaram uma cidade provinciana do planalto em algo que não existia em nenhum outro lugar do hemisfério sul: um parque industrial denso, diversificado, e capaz de se autorealimentar.

Para entender como isso aconteceu, é preciso começar pelo café — que não é o final da história, mas é onde ela começa de verdade.

O café

Participação na produção brasileira de café por estado (1840–1930)

Estimativa histórica em % da produção nacional  ·  1883: SP ultrapassa RJ

São Paulo Rio de Janeiro Minas Gerais Outros estados

Pontos âncora nas fontes: RJ = 78,5% e SP = 12,1% em 1860 (Unicamp/Formação Econômica); inversão SP ≥ RJ em 1883; SP ~35% no final do séc. XIX. Demais valores são interpolações baseadas em fontes historiográficas.

No final do século XIX, o estado de São Paulo produzia algo em torno de 35% de todo o café brasileiro, com o epicentro na região da Mogiana e no chamado Oeste Paulista. O café chegou ao interior de São Paulo após a decadência do Vale do Paraíba, onde a cultura era mantida por mão de obra escrava; no Oeste, foi a vez de uma força de trabalho livre, composta principalmente por imigrantes europeus, sobretudo italianos. Essa diferença não é detalhe. Ela muda tudo.

O café foi responsável pela introdução da ferrovia em São Paulo, construída para escoar o principal produto de exportação do país, e trouxe aproximadamente 4 milhões de imigrantes entre o final do século XIX e início do XX. Esses imigrantes chegavam com experiência em ofícios, com alguma noção de trabalho assalariado e, em muitos casos, com o desejo de prosperar por conta própria. Não eram apenas força de trabalho: eram um embrião de mercado consumidor e de mão de obra industrial qualificada.

O que aconteceu em seguida é um dos fenômenos mais bem documentados da história econômica do Brasil. Na virada do século, quase 60% dos trabalhadores na indústria de São Paulo eram imigrantes de primeira geração. De 1900 a 1920 há um movimento contrário: no expressivo crescimento da força de trabalho industrial do período, em São Paulo, preponderam trabalhadores brasileiros. O que isso significa na prática é que a imigração subsidiada para os cafezais criou, paradoxalmente, um excedente de mão de obra que foi para as cidades — e foi esse excedente que abasteceu as primeiras fábricas paulistanas.

A incorporação dessa massa de trabalhadores livres assalariados modificou o cenário urbano, impulsionou a economia monetária, dinamizou os setores do comércio e serviços, contribuindo para o aumento da demanda por produtos que até então não eram produzidos ou eram escassos na região. Em outras palavras: o café não criou a indústria diretamente. Ele criou as condições para que a indústria emergisse — capital, mão de obra, ferrovias, cidades e um mercado interno embrionário.

Regiões cafeeiras do estado de São Paulo

Expansão geográfica da cafeicultura paulista — sécs. XIX e XX passe o mouse para detalhes

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São Paulo

Ao longo do século XIX, o café migrou do Vale do Paraíba — sustentado por trabalho escravo — para o Oeste Paulista, onde foi cultivado por imigrantes europeus sob o sistema de colonato.

Regiões

1929

A crise de 1929 é frequentemente descrita como o momento em que a economia brasileira virou a chave. Essa leitura não é errada, mas é incompleta. O que a crise fez foi acelerar e tornar urgente uma transição que já estava em curso havia décadas. Com a retração do mercado mundial originada pela crise de 1929, os investimentos nacionais, outrora voltados principalmente para a expansão do café, passaram a se orientar para a produção manufatureira, com vistas a satisfazer uma demanda antes atendida pelas importações.

São Paulo estava melhor posicionada que qualquer outro estado para fazer essa transição. A cidade já estava dotada de infraestrutura, mercado consumidor crescente e proximidade com o porto de Santos, e tornou-se o epicentro do desenvolvimento industrial brasileiro. Não era uma questão de vocação, era uma questão de vantagem cumulativa: quem já tinha fábricas atraía mais fábricas, quem já tinha trabalhadores qualificados atraía mais indústria intensiva em trabalho, quem já tinha ferrovias escoava a produção com custo menor.

Vargas

A entrada de Getúlio Vargas no poder em 1930 muda o papel do Estado na economia de forma permanente. Até então, o governo federal era basicamente um árbitro que protegia os interesses dos cafeicultores. A partir daí, ele se torna um ator ativo na industrialização. Vargas foi o responsável por iniciar efetivamente uma política industrial de substituição de importações. Seu governo priorizou a implantação de indústrias estatais para atuarem em setores estratégicos, especialmente na área de bens de produção e de infraestrutura.

A maioria dessas novas indústrias foi instalada no eixo São Paulo–Rio de Janeiro, aprofundando a concentração industrial que já existia na região. O raciocínio era simples: onde já havia trabalhadores, fornecedores e infraestrutura, o custo marginal de instalar mais uma fábrica era menor. Isso criou um ciclo que se autoalimentava e que São Paulo, por ter partido primeiro, foi o principal beneficiário.

O resultado desse período, para São Paulo, foi uma transformação estrutural sem paralelo no Brasil. A metrópole que hoje tem 10 milhões de habitantes na cidade e perto de 20 milhões na região metropolitana se constituiu, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, em um grande parque industrial, concentrando a maior parte da produção industrial do Brasil, o que faz com que, a partir da década de 1970, se torne a principal cidade do país em termos econômicos e culturais.

JK e os anos 1950

Se Vargas construiu a base pesada — siderurgia, energia, petróleo —, Juscelino Kubitschek abriu a porta para o capital estrangeiro e para a indústria de bens de consumo durável. A concentração industrial no Sudeste cresceu ainda mais no período Kubitschek (1956–1961), político responsável por intensificar a política de substituição de importações por meio de uma fórmula nacional-desenvolvimentista diferente da de Vargas, que previa o fomento a uma economia mista com forte presença estatal em setores de infraestrutura e incentivo ao capital privado nas demais áreas.

As montadoras que se instalaram na Grande São Paulo — no ABC paulista — nesse período não eram só empresas. Eram polos de desenvolvimento tecnológico, de formação de trabalhadores qualificados e de encadeamento produtivo. Uma fábrica de automóveis exige produtores de aço, de vidro, de borracha, de componentes elétricos. São Paulo foi o lugar onde toda essa cadeia se instalou.

É difícil olhar para São Paulo hoje sem sentir a tensão entre o que a industrialização construiu e o que ela deixou para trás. A cidade se tornou a maior da América do Sul carregando na mesma bagagem a modernidade industrial e uma desigualdade estrutural que nunca foi resolvida. Apesar da grande industrialização, das atividades de alta tecnologia e dos serviços especializados desenvolvidos nas metrópoles paulistas, os benefícios auferidos com o crescimento econômico não se reverteram para a satisfação das condições de vida da maior parte da população, concentrando-se nas mãos de poucos.

A partir dos anos 1980, e especialmente após a abertura econômica dos anos 1990, São Paulo começou a perder participação industrial relativa. As fábricas migraram para o interior do estado, para outros estados do Sudeste e para regiões com incentivos fiscais mais atrativos. A cidade virou, progressivamente, uma economia de serviços — finanças, tecnologia, saúde, educação. Mas o que ela é hoje, esse lugar de convergência de capital, talento e decisão, não existiria sem a industrialização que começou com um grão de café e foi parar numa linha de montagem em Santo André.


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