A imigração na Europa e a tese do “Choque de Civilizações”

Novamente estouram conflitos sobre imigração. O foco, desta vez, está em Ceuta: cidade autônoma espanhola situada no continente africano, colada ao território de Marrocos. Separada da Espanha peninsular pelo Estreito de Gibraltar (cerca de 14 km no ponto mais estreito, e algo em torno de 17–20 km até a costa espanhola mais próxima), Ceuta funciona como um dos raros pontos de contato terrestre direto entre a União Europeia e o continente africano.

Isso tudo está analisado no livro de Huntington “O Choque de Civilizações”, obra muito estudada na área de relações internacionais. Já escrevi sobre a tese do autor aqui no site, mas resolvi revisitar a tese com outros olhos, porque o cenário atual em Ceuta tem tudo a ver com o que ele descrevia.

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Huntington era professor de Harvard e publicou, em 1993, um artigo na revista Foreign Affairs que se tornaria um dos mais discutidos da história da publicação. Com o fim da Guerra Fria e o colapso da divisão ideológica entre capitalismo e comunismo, alguma força ainda precisava organizar os conflitos do mundo. Huntington apostava que essa força seria a cultura, não mais a ideologia ou a economia que definiam a Guerra Fria. As grandes linhas de fratura do futuro estariam entre civilizações, não entre nações ou blocos políticos (fonte).

O autor dividiu o mundo em oito ou nove grandes civilizações, dependendo da versão do texto, entre elas a ocidental, a islâmica, a sínica (chinesa), a hindu, a budista, a eslava ortodoxa, a latino-americana, a japonesa e a africana. Cada uma dessas civilizações se define por elementos como religião, língua, história e instituições, mas o fator religioso é o que Huntington considera mais determinante. Ele fazia questão de separar identidade étnica de identidade religiosa. Alguém pode ser meio francês e meio argelino ao mesmo tempo, sem grande conflito interno. Já ser meio católico e meio muçulmano é outra história, porque a religião funciona como um marcador de pertencimento muito mais rígido.

O conceito central da tese são as fault lines (linhas de fratura culturais). São as regiões do mundo onde civilizações diferentes fazem fronteira física ou demográfica, e é justamente nessas bordas que Huntington previa que os conflitos do futuro iriam se concentrar. Ele cita a Bósnia, o Cáucaso, a Caxemira e, de forma bem específica, o Mediterrâneo, como fronteira entre a Europa ocidental e o norte da África islâmico. Huntington já falava, lá em 1993, que o crescimento populacional acelerado no Magrebe geraria pressão migratória crescente sobre a Europa. Um estudo do Migration Policy Institute, think tank (grupo de pesquisa especializado) americano, mostra que essa dinâmica é estrutural: a população em idade de trabalhar segue crescendo no norte da África e no Oriente Médio justamente quando a população europeia começa a encolher (fonte).

É exatamente esse cenário que estamos vendo se repetir em Ceuta agora. Na quinta-feira, dia 30 de julho, milhares de imigrantes, a maioria marroquinos, atravessaram a fronteira a nado ou escalando a cerca de proteção depois que a polícia marroquina não conseguiu mais conter o fluxo. Pelo menos 18 pessoas morreram nessa leva mais recente, algumas afogadas, outras esmagadas na correria para passar pelo quebra-mar de Tarajal, segundo autoridades locais (fonte).

Ceuta

O prefeito de Ceuta, Juan Jesús Vivas, descreveu a situação como uma emergência humanitária e social absoluta e pediu que o governo de Pedro Sánchez enviasse o Exército pra retomar o controle da fronteira. A Guardia Civil (a polícia civil espanhola), segundo relatos locais, ficou sobrecarregada já no meio do dia de quinta-feira e só conseguia atender os feridos. Parte das autoridades atribui o agravamento da crise a uma decisão do Supremo Tribunal espanhol de junho que proibiu a devolução imediata de imigrantes interceptados nadando rumo a Ceuta (fonte).

O Ministério do Interior espanhol negou o pedido de emergência nacional feito por Vivas, argumentando que fluxo migratório não é um risco previsto pelas regras do sistema de proteção civil do país, embora tenha garantido que vai reforçar a segurança na fronteira (fonte). Aí mora um detalhe interessante da crise, porque não é só o choque entre civilização islâmica e ocidental que está em jogo. Dentro da própria civilização ocidental, a política migratória virou um divisor de águas entre governos mais abertos ao acolhimento e vozes que cobram fechamento de fronteira. A crise de Ceuta de 2026 já lembra bastante a de maio de 2021, quando cerca de dez mil pessoas entraram na cidade em poucos dias depois que o Marrocos afrouxou deliberadamente o controle fronteiriço como forma de pressão diplomática sobre a Espanha (fonte).

Ucrânia

Outro caso que corrobora bastante a tese, embora de um jeito diferente, é a guerra na Ucrânia. Huntington classificava a Ucrânia como um cleft state, dividido internamente entre uma parte de identidade mais eslava ortodoxa e vinculada à Rússia, e outra parte que se volta para a identidade ocidental. Ele não previu exatamente uma invasão russa nesses termos, mas o enquadramento que muita gente usa hoje pra explicar o conflito, o de que a Rússia estaria puxando a Ucrânia de volta pra sua órbita civilizacional enquanto o Ocidente tenta absorvê-la, segue de perto a lógica que ele descrevia pros países fendidos (fonte).

Caxemira

Já do lado asiático, tem o confronto entre Índia e Paquistão em maio de 2025, que foi o mais grave entre as duas potências nucleares em décadas. Tudo começou com um ataque terrorista em Pahalgam, na Caxemira administrada pela Índia, que matou 26 pessoas, a maioria turistas hindus. A Índia culpou o Paquistão e lançou a chamada Operação Sindoor, com ataques a nove alvos em território paquistanês. O Paquistão negou envolvimento e revidou com ataques próprios, até um cessar-fogo ser firmado em 10 de maio (fonte). A Caxemira é exatamente esse tipo de linha de fratura que Huntington descrevia, uma região de maioria muçulmana encravada entre um estado de maioria hindu e um estado de maioria muçulmana, com identidade religiosa funcionando como o principal combustível do conflito há mais de setenta anos.

Limites

Precisamos entender que a teoria de Huntington tem bastante poder explicativo, mas ela também simplifica demais em vários pontos. Um dos problemas mais citados por quem estuda o tema é que Huntington trata civilizações como blocos praticamente monolíticos, quando na prática existem enormes disputas internas dentro de cada uma delas. O mundo islâmico tem a rivalidade histórica entre sunitas e xiitas (os dois principais ramos do Islã). A própria civilização ocidental está cada vez mais rachada entre um modelo anglo-saxão mais liberal na economia e um modelo continental europeu mais social-democrata, e essa fragmentação interna talvez seja hoje um fator tão relevante quanto qualquer choque entre civilizações diferentes (fonte).

Existe também uma crítica acadêmica que usa dados empíricos pra testar a tese, em vez de só discuti-la no campo teórico. Um estudo publicado pela Cambridge University Press usou pesquisas de opinião em toda a Ásia e no Pacífico pra medir se as pessoas realmente se identificam com os chamados Estados-núcleo de cada civilização, como os Estados Unidos pro Ocidente, a China pra civilização sínica e o Irã pro mundo islâmico. Os dados confirmam parte das tensões que Huntington descrevia entre essas três civilizações, mas mostram também que globalização e nacionalismo interferem bastante nesse pertencimento, algo que a teoria original não media com tanta precisão (fonte).

Na minha visão, isso não invalida a tese, só mostra que ela funciona melhor como uma lente entre várias do que como uma fórmula fechada. Ceuta, Ucrânia e Caxemira são casos que se encaixam bem no modelo de Huntington, mas nenhum deles se explica só por cultura e religião. Cada um desses episódios carrega uma camada de economia, de geopolítica regional e de interesse de governo que a lente puramente cultural não dá conta de explicar sozinha. O que Huntington acertou, e isso talvez seja o mais interessante de revisitar hoje, foi enxergar que a religião voltaria a ser um marcador de identidade política forte num mundo que, nos anos 90, todo mundo apostava que ia se tornar cada vez mais homogêneo e secular.

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