Blackwater e a privatização da guerra americana

Depois do texto sobre o Grupo Wagner, ficou faltando contar a história do lado americano. Antes de Prigozhin virar mercenário de Putin, os Estados Unidos já tinham criado o modelo que o mundo inteiro copiaria depois, uma empresa privada armada, paga pelo governo, operando em zonas de guerra sem vestir o uniforme de nenhum país. O termo técnico do setor pra isso é private military contractor (empresa militar privada), e a empresa que praticamente inventou essa indústria moderna se chamava Blackwater. O homem por trás dela, Erik Prince, ainda hoje segue vendendo o mesmo tipo de serviço pra quem quiser pagar (você pode segui-lo no X).

Erik Prince, fundador da Blackwater

Erik Prince nasceu em Holland, no Michigan, filho de uma família que fez fortuna com autopeças. O pai dele, Edgar Prince, vendeu a Prince Corporation por 1,3 bilhão de dólares pouco antes de morrer, em 1995, e foi esse dinheiro de herança que financiou o projeto do filho. Erik serviu como Navy SEAL, a força de operações especiais da Marinha americana, e deixou o serviço ativo justamente quando o pai morreu. No fim de 1996, ao lado de outro ex-SEAL chamado Gary Jackson, ele comprou uma extensa área de terra na Carolina do Norte, perto de Moyock, pra montar um centro de treinamento militar particular. A água daquela região tinha uma cor escura por causa da turfa acumulada nos canais de drenagem, e foi daí que veio o nome Blackwater. Prince testemunhou depois ao Congresso americano que fundou a empresa em 1997, depois de quase cinco anos de serviço ativo como Navy SEAL. (Washington Post)

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Afeganistão

O plano inicial da Blackwater era treinar policiais e militares americanos, nada muito diferente do que outras empresas de treinamento já faziam na época. O jogo mudou com os ataques de 11 de setembro de 2001. Prince já tinha contato antigo com Alvin Krongard, então o número três da CIA, e usou essa relação pra oferecer os serviços da empresa logo depois dos atentados. A agência aceitou e mandou a Blackwater montar segurança pras próprias instalações no Afeganistão, incluindo um posto avançado na fronteira com o Paquistão que os funcionários apelidaram de Alamo. Em 2002 veio o primeiro contrato oficial com a CIA, de 5,4 milhões de dólares, pra proteger a base da agência em Cabul. (CNN)

Um detalhe importante de mencionar é que essa relação foi bem mais fundo do que segurança de prédio. Em 2004 a CIA contratou a Blackwater pra ajudar num programa secreto de localização e assassinato de líderes da Al Qaeda. O programa nunca matou ninguém, mas ficou escondido do Congresso por sete anos, até o diretor da CIA Leon Panetta descobrir sua existência em 2009 e cancelar tudo às pressas. Vários ex-executivos graúdos da CIA foram trabalhar na Blackwater ao longo dos anos, o que ajuda a entender como a empresa conseguia esse tipo de acesso. (NPR)

No Iraque, a função da Blackwater não era de combate e sim de proteção. A partir de 2003 o Departamento de Estado americano passou a contratar a empresa pra escoltar diplomatas e funcionários da reconstrução pelo país, já que o próprio corpo de segurança diplomática do governo tinha sido esvaziado ao longo dos anos anteriores. (Brookings)

Foi nesse contexto que aconteceu o episódio que tornou o nome Blackwater conhecido internacionalmente, ainda antes de Nisour Square. Em 31 de março de 2004, quatro contratados da empresa, Scott Helvenston, Jerry Zovko, Wesley Batalona e Mike Teague, escoltavam um comboio de caminhões vazios que iam buscar equipamento de cozinha numa base americana. Eles entraram em Faluja, cidade que já era um reduto da insurgência sunita, e caíram numa emboscada. Os quatro foram mortos a tiros, e a multidão que se formou depois queimou os corpos, arrastou os restos pelas ruas e pendurou dois deles numa ponte sobre o rio Eufrates. As imagens correram o mundo e viraram um dos momentos mais marcantes da cobertura da guerra do Iraque pra opinião pública americana. (Modern War Institute)

Os fuzileiros navais receberam ordem de tomar a cidade, no que ficou conhecido como a Primeira Batalha de Faluja, embora a operação tenha sido interrompida no meio do caminho por pressão internacional. As famílias dos quatro contratados processaram a Blackwater alegando que a empresa mandou os funcionários pra Faluja em veículos sem blindagem e sem homens suficientes pra operar as armas de apoio. O caso demorou sete anos pra ser resolvido e terminou num acordo confidencial. (Al Jazeera)

Nisour Square

Três anos depois veio o episódio que definiu de vez a reputação da Blackwater. Em 16 de setembro de 2007, um comboio da empresa escoltava funcionários do Departamento de Estado por Bagdá quando parou na praça Nisour, um cruzamento movimentado da cidade. Os seguranças, integrantes de uma equipe chamada Raven 23, abriram fogo contra o trânsito parado usando fuzis, metralhadoras e granadas, sem que houvesse qualquer provocação segundo a investigação do FBI. Quando cessou o tiroteio, 17 civis iraquianos estavam mortos, entre eles duas crianças, e outros 20 ficaram feridos. (Departamento de Justiça dos Estados Unidos)

Esse não era um caso isolado, o que ajuda a entender por que a reação foi tão forte. Um levantamento da Câmara dos Representantes revelou que a Blackwater já tinha se envolvido em 195 incidentes de escalada de força desde 2005, sendo que em mais de 160 deles foram os próprios seguranças da empresa que atiraram primeiro. Erik Prince foi chamado a depor no Congresso semanas depois, onde o deputado Henry Waxman lembrou que a empresa tinha começado, em 2001, com pouco mais de 200 mil dólares em contratos federais e já faturava mais de um bilhão de dólares por ano. (Congresso dos Estados Unidos)

O processo criminal contra os seguranças envolvidos demorou pra andar. Só em 2014 quatro deles, Nicholas Slatten, Paul Slough, Evan Liberty e Dustin Heard, foram a júri federal em Washington. Depois de dez semanas de julgamento e 28 dias de deliberação, todos foram considerados culpados, Slatten por homicídio doloso e os outros três por homicídio culposo qualificado e uso ilegal de arma de fogo. Slatten pegou prisão perpétua e os demais receberam trinta anos cada, sentenças que passaram por anos de recursos e um novo julgamento pra Slatten, confirmado só em 2018. (Departamento de Justiça dos Estados Unidos)

Tudo isso foi desfeito de uma vez em dezembro de 2020, no fim do primeiro mandato de Trump. O presidente concedeu perdão aos quatro condenados, alegando o histórico militar deles e o apoio popular à causa. A reação foi de indignação praticamente unânime fora dos Estados Unidos. O escritório de direitos humanos da ONU chamou a decisão de um estímulo à impunidade, e famílias das vítimas em Bagdá disseram publicamente que perderam a confiança na justiça americana. (ONU News)

A pressão depois de Nisour Square custou caro pro nome Blackwater. Em 2009 a empresa mudou de nome pela primeira vez, virando Xe Services, numa tentativa de se distanciar do episódio e reposicionar o negócio em torno de logística, aviação e treinamento em vez de segurança armada. Prince saiu da direção executiva no mesmo ano, embora tenha continuado como presidente do conselho até vender a empresa, em 2010, pra um grupo de investidores. Sob os novos donos a empresa trocou de nome outra vez, em 2011, passando a se chamar Academi, e acabou incorporada em 2014 ao grupo Constellis, que reúne várias firmas de segurança privada até hoje. (NBC News)

Abu Dhabi

Prince, livre da empresa que fundou, não parou de trabalhar com segurança privada. Em 2010 ele se mudou pra Abu Dhabi, e no ano seguinte fechou um contrato de 529 milhões de dólares com o príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos pra montar um batalhão de oitocentos mercenários estrangeiros. A empresa criada pra isso, a Reflex Responses, recrutou boa parte do efetivo na Colômbia, e o motivo declarado por ex-funcionários era que os Emirados não confiavam em soldados muçulmanos pra esse tipo de missão. Parte desses combatentes acabou lutando no Iêmen a partir de 2015, quando a Arábia Saudita liderou a intervenção militar contra os rebeldes houthis, e houve baixas registradas entre os próprios mercenários colombianos. (UPI)

Vectus Global

A gente precisa entender que Erik Prince nunca realmente saiu de cena. Ele passou a década seguinte circulando entre projetos na África, incluindo uma tentativa de restaurar refinarias de petróleo no Sudão do Sul, e ficou marcado também por um encontro secreto nas Seychelles em 2017 com um financista russo ligado a Putin, episódio investigado como parte das apurações sobre a interferência russa na eleição americana de 2016.

Com a volta de Trump à Casa Branca em 2025, Prince reapareceu com força total à frente de uma nova empresa, a Vectus Global. Ele fechou uma aliança com o presidente equatoriano Daniel Noboa pra ajudar no combate ao crime organizado, assinou um contrato de dez anos com o governo de transição do Haiti pra enfrentar as gangues que controlam boa parte de Porto Príncipe e reformar o sistema de arrecadação de impostos do país, e ainda fechou acordo com a República Democrática do Congo pra ajudar a proteger e taxar as reservas minerais do país. No Haiti, a operação já usa drones armados em ataques contra líderes de gangue, seguindo um modelo parecido com o que se viu na guerra da Ucrânia. (Reuters via US News)

Prince falou sobre esse novo modelo de negócio numa entrevista ao Financial Times. Segundo ele, atualmente o dinheiro não vem do governo americano nem da União Europeia, e sim dos próprios governos locais que o contratam, cada um lidando com um problema grande demais pra resolver sozinho. No caso do Haiti e do Congo, a remuneração funciona como uma fatia da arrecadação de impostos que os homens dele conseguem recuperar pro Estado. Ele descreve a lógica do negócio como encontrar um jeito de organizar equipamento, pessoal e processos dentro de um preço que esses governos consigam pagar. No Haiti, Prince afirma que a equipe enfrenta dezenas de milhares de integrantes de gangues e já retomou cerca de metade de Porto Príncipe, mesmo estando em desvantagem numérica. Um contraste que vale registrar é que, no passado, ele rebatia com força qualquer acusação de que os contratados da Blackwater fossem mercenários, argumentando que boa parte deles eram veteranos americanos retornando ao Iraque depois de servir no país. Hoje ele admite sem problema que esse é exatamente o nome certo pro trabalho que faz. (Financial Times)

Um paralelo com o Grupo Wagner. Assim como Prigozhin fazia na República Centro-Africana ou no Sudão, trocando proteção militar por acesso a ouro e diamantes, Prince está usando exatamente a mesma lógica na República Democrática do Congo, oferecendo segurança em troca de uma fatia da receita mineral do país. Um estudo da Arizona State University chegou a comparar diretamente os contratos de Prince com os que o Grupo Wagner, hoje reorganizado como Africa Corps, mantém em várias partes da África em nome dos interesses de Putin e do círculo de oligarcas russos. A diferença é que, no caso americano, quem assina os contratos é um aliado próximo da Casa Branca, mesmo que o governo dos Estados Unidos negue formalmente qualquer envolvimento direto. (Small Wars Journal)

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