Existe um jogo que o mundo inteiro joga hoje, mas poucos entendem suas regras. É a história de como o Império Britânico, ao perder seu domínio territorial, reinventou-se como império financeiro — e de como os americanos herdaram esse tabuleiro, transformando-o em instrumento de hegemonia global.
As engrenagens ocultas do mundo financeiro, uma rede de finanças globais que opera nas sombras, permitindo que o dinheiro flua sem fronteiras ou regulações estritas. Essa história começa com o declínio de um império e evolui para a base da hegemonia econômica moderna.
A Crise de Suez e o Nascimento do Offshore
Começo por 1956, porque foi nesse ano que tudo mudou. A crise do Canal de Suez humilhou a Grã-Bretanha de forma irreversível. Quando Nasser nacionalizou o canal e os britânicos tentaram retomá-lo pela força, os americanos simplesmente disseram não — e orquestraram uma corrida especulativa contra a libra esterlina que custou ao Banco da Inglaterra cerca de 450 milhões de dólares. Foi o colapso financeiro do império.
As elites financeiras britânicas, acostumadas a ditar termos ao mundo inteiro, viram-se reduzidas a mais uma potência europeia. O problema é que eles ainda controlavam a City de Londres, o distrito financeiro com quase mil anos de autonomia em relação à Coroa. E foi ali, naquele metro quadrado de privilégios medievais, que nasceu a solução.
Em setembro de 1957, o Banco da Inglaterra fez um acordo tácito com os bancos comerciais: qualquer transação em moeda estrangeira (especialmente dólares) entre dois não-residentes seria considerada como não tendo ocorrido em Londres — mesmo que todos os registros estivessem ali. Era uma ficção contábil brilhante. Se a transação não ocorria em território britânico, não estava sujeita à regulação britânica. Mas como também não ocorria nos Estados Unidos, escapava da regulação americana.
Nasceu o Euromercado. Dinheiro visível e invisível ao mesmo tempo.
Primeiros Pioneiros
A genialidade do sistema estava na sua opacidade. O sistema bancário britânico operava — e ainda opera — como um clube fechado onde a supervisão regulatória consistia literalmente em tomar chá de vez em quando e pedir educadamente que não se fizesse nada ilegal. Nada de punições, nada de fiscalizações rigorosas.
Nesse ambiente aconchegante, onde todos se conheciam dos mesmos círculos sociais, o interesse estava em promover a agenda do grupo — que casualmente envolvia contornar qualquer regulação que atrapalhasse o banking internacional. Eles sentiam falta dos dias gloriosos do império. Este vácuo regulatório criou o que alguns chamaram de “lógica de Alice no País das Maravilhas”: transações aconteciam fisicamente em Londres, mas eram oficialmente inexistentes.
O Moscow Narodny Bank, ironicamente um banco soviético, foi um dos primeiros a aproveitar esse sistema. A URSS tinha dólares mas temia que os americanos os congelassem durante a Guerra Fria. A solução? Depositar em Londres, onde poderiam ganhar juros sem passar pelo sistema de pagamentos americano. O endereço telex do banco era “EUROBANK” — daí o nome Eurodólar.
Esse pioneirismo logo inspirou outros players. O Midland Bank começou a explorar sistematicamente a arbitragem regulatória, oferecendo 1,825% para depósitos em dólar de 30 dias — muito acima do limite de 1% imposto pela Regulation Q americana. Depois vendiam esses dólares à vista por libras e os recompravam a prazo. O custo líquido era de 4% quando a taxa oficial do Banco da Inglaterra era 4,5%. Financiamento mais barato através de uma ficção contábil.
O Crescimento Explosivo e o Fim de Bretton Woods
Esse pioneirismo levou a um crescimento vertiginoso, como mostram os números. Em 1960, o Euromercado valia cerca de 1 bilhão de dólares. Dez anos depois, em 1970: aproximadamente 46 bilhões. Quando Nixon abandonou o padrão-ouro em 1971 e os controles de capital foram sendo desmontados ao longo da década de 1970, o sistema explodiu. Em 1980: perto de 500 bilhões. Em 1988: estimados 2,6 trilhões de dólares.
Bretton Woods (já escrevemos sobre aqui) foi construído sobre regulações financeiras e restrições aos movimentos de capital. Mas agora operava um mercado completamente desregulado, verdadeiramente global porque tecnicamente não existia em lugar nenhum. Como a internet primitiva: estava presente em todos os lugares e ausente simultaneamente. Criou um novo espaço que atraiu fundos massivos e basicamente minou todo o sistema de regulação nacional que sustentava Bretton Woods.
Os americanos rapidamente perceberam a oportunidade. Abrindo filiais em Londres, bancos como o Chase Manhattan podiam oferecer melhores taxas de depósito em dólar do que suas próprias matrizes em Nova York — sem estar sujeitos às regras do Federal Reserve. Era bizarro: o escritório londrino do Chase competia contra sua própria sede.
A Segunda Rede Imperial e Seus Custos Invisíveis
Aqui está o ponto crucial: enquanto o império formal britânico desaparecia, um segundo império emergia. Pequenas jurisdições que ainda eram parte da Commonwealth — Ilhas Cayman, Bahamas, Jersey, Guernsey, Ilhas Virgens Britânicas, Hong Kong, Cingapura — transformaram-se em centros financeiros offshore.
Como documenta o cientista político Ronen Palan, esse fenômeno representa uma “comercialização da soberania” onde estados descobriram que seus direitos de escrever leis podiam ser usados como ativo comercial. As Ilhas Cayman são o exemplo perfeito dessa lógica: tem mais de 80 mil empresas registradas, é o quinto maior centro financeiro do mundo, hospeda três quartos de todos os hedge funds globais.
Estima-se que um terço de toda a riqueza offshore está nessas ramificações do sistema britânico. O sistema completo engloba metade de todo o dinheiro não contabilizado globalmente, incluindo os Eurodólares. É uma rede hub-and-spoke com a City de Londres no centro, alimentada por pipelines de dinheiro não regulado fluindo das ex-colônias.
Mas esse sistema tem um lado obscuro que merece atenção. Quando os Panama Papers revelaram 11,5 milhões de documentos em 2016, expondo como mais de 214 mil entidades offshore eram usadas para evasão fiscal, lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas, o mundo finalmente viu a escala do problema. A Oxfam estima que cerca de 190 bilhões de dólares em receitas tributárias são perdidos anualmente devido a riqueza escondida em paraísos fiscais — um valor que supera toda a assistência oficial ao desenvolvimento dos países da OCDE.
Para países em desenvolvimento, o impacto é devastador. Como relatou o Centro de Direitos Econômicos e Sociais após os Panama Papers, os bilhões drenados dos cofres públicos causam privações crônicas de direitos econômicos e sociais, particularmente em nações pobres. É dinheiro que deveria financiar educação, saúde, infraestrutura — mas desaparece em contas nas Ilhas Cayman.
E aqui está a astúcia política britânica: nas estatísticas internacionais, as Ilhas Cayman aparecem como um estado independente. A Grã-Bretanha conseguiu esconder o quanto de fundos realmente passa pelo estado britânico. Como resultado, o governo britânico tem um papel muito mais central na regulação internacional do que lhe é atribuído — mas tem um interesse permanente em minimizar esse papel.
Durante as negociações para entrar na União Europeia, os britânicos defenderam ferozmente as Crown Dependencies de qualquer regulação intrusiva. Sabiam perfeitamente bem que o sistema offshore era sua verdadeira mina de ouro. Mesmo após o Brexit, a defesa dessas jurisdições permaneceu como prioridade estratégica.
A Herança Americana e o Novo Império do Dólar
Os Estados Unidos não criaram esse sistema — mas herdaram-no e expandiram-no exponencialmente. O dólar tornou-se a moeda hegemônica global não apenas pela força econômica americana, mas porque os americanos se tornaram os maiores beneficiários desse mercado offshore criado pelos britânicos.
Hoje, mais dólares são criados offshore, fora da jurisdição americana, do que dentro dos Estados Unidos. Essa é a realidade do que alguns chamam de “sistema offshore do dólar”. Bancos estrangeiros criam dólares americanos sob as leis de jurisdições offshore, combinando a moeda americana com o direito comercial britânico — menos punitivo para tomadores de empréstimo.
O poder monetário internacional não é mais apenas sobre quem emite a moeda. É sobre quem tem acesso a dólares offshore e a capacidade de determinar liquidez internacional e de estabelecer, selecionar ou contornar as regras relacionadas.
A hegemonia do dólar sobrevive — e até se expande — não apesar desse sistema offshore, mas por causa dele. O Federal Reserve descobriu que pode agir como maestro dessa orquestra através de swap lines com bancos centrais estrangeiros, fornecendo liquidez em dólar quando necessário.
E aqui está o ponto crucial: durante a crise de COVID-19 em março de 2020, quando mercados globais enfrentaram uma súbita escassez de dólares, o Fed expandiu seu balanço em 3 trilhões de dólares — dos quais cerca de 450 bilhões (um sexto do total) foram em forma de swaps com bancos centrais estrangeiros. Como documentam economistas do Federal Reserve Bank de Dallas, essas linhas de swap não apenas estabilizaram mercados offshore de financiamento em dólar, mas também reverteram a apreciação abrupta do dólar e ajudaram moedas estrangeiras a recuperarem valor.
O pico do uso de swap lines ocorreu em junho de 2020, quando cerca de 470 bilhões de dólares estavam emprestados — 80% disso para o Banco Central Europeu e o Banco do Japão. Não foi caridade: foi gestão estratégica de liquidez global para proteger o sistema financeiro americano de choques externos.
O Paradoxo da Soberania e os Pontos de Estrangulamento
Existe uma tensão fundamental que define nosso mundo financeiro: cada estado soberano tem o direito de emitir e regular sua própria moeda, mas um punhado dessas moedas nacionais — com o dólar no centro — predomina nas transações internacionais, funciona como reserva de valor e até substitui moedas nacionais no dia a dia.
A história das moedas hegemônicas não é nova. Do dracma ateniense à libra esterlina antes da Primeira Guerra Mundial, sempre houve moedas usadas além das jurisdições que as emitiram. Mas o que torna o sistema atual único é justamente esse caráter offshore — a bifurcação entre o estado emissor e as jurisdições onde o dinheiro é criado.
Quando falamos em teoria dos jogos aplicada às finanças internacionais, estamos falando exatamente disso: um jogo onde as regras são intencionalmente mantidas opacas, onde o poder não está apenas em emitir moeda mas em controlar os pontos de estrangulamento da infraestrutura financeira — as contas correspondentes, os sistemas de mensageria como o SWIFT, as facilidades de compensação.
A hegemonia do dólar permite aos Estados Unidos criar chokepoints em todos esses três tipos de infraestrutura. Podem proibir bancos americanos de manter contas correspondentes com contrapartes estrangeiras que ofereçam serviços a entidades sancionadas. Podem impor penalidades a bancos estrangeiros por violar leis americanas — mesmo que as transações não tenham tecnicamente ocorrido em solo americano.
É um paradoxo: o sistema offshore nasceu para escapar da regulação, mas acabou criando novos mecanismos de controle ainda mais concentrados. A diferença é que agora o controle não é exercido através de regulação transparente, mas através do acesso à infraestrutura invisível do dinheiro global.
O Jogo Continua — E Seus Custos Reais
O sistema que os britânicos criaram para compensar o declínio imperial tornou-se a base da arquitetura financeira global. Os americanos não apenas herdaram esse jogo — eles o refinaram, expandiram e o transformaram em instrumento de poder geopolítico.
É um jogo onde metade do mercado financeiro global vive em espaços não regulados. Onde acordos “voluntários” como Basel I e Basel II tentam impor alguma ordem, mas deixam enormes brechas. Onde se fala em regular o sistema bancário onshore enquanto o componente offshore — incluindo o shadow banking — permanece essencialmente intocado.
Quando políticos falam sobre desregulamentação financeira como causa de crises, estão olhando para o lugar errado. A desregulamentação seguiu mercados financeiros já desregulados. O Euromercado sempre foi offshore. A questão nunca foi regular ou desregular — mas reconhecer que o jogo já estava sendo jogado fora das regras.
Mas esse jogo tem perdedores concretos. Quando governos de países em desenvolvimento perdem 190 bilhões de dólares anuais em receitas tributárias devido a evasão facilitada por estruturas offshore, são escolas que não são construídas, hospitais que não funcionam, infraestrutura que não se materializa. Como apontou o Independent Expert da ONU sobre dívida externa e direitos humanos após os Panama Papers, fluxos financeiros ilícitos de países em desenvolvimento e emergentes totalizaram cerca de 1,1 trilhão de dólares apenas em 2013.
A ironia final é que até 2025, governos ao redor do mundo recuperaram apenas cerca de 1,3 bilhões de dólares através de investigações derivadas dos Panama Papers — menos de 1% de um único ano de perdas estimadas. As estruturas offshore continuam operando, apenas com mais cuidado.
E todos nós continuamos jogando, todos os dias, nesse sistema que começou com uma ficção contábil em Londres em 1957. Um sistema onde dinheiro é simultaneamente visível e invisível, onde transações ocorrem e não ocorrem, onde o poder financeiro flui através de canais opacos entre a City de Londres, pequenas ilhas caribenhas, e os grandes bancos de Wall Street.
O Império Britânico nunca caiu completamente. Ele apenas se reinventou como rede financeira. E os americanos, pragmáticos como sempre, perceberam que valia mais herdar e expandir esse tabuleiro do que tentar destruí-lo. Em 2020, quando o mundo entrou em pânico financeiro, foram as swap lines do Federal Reserve — operando através desse mesmo sistema offshore — que estabilizaram os mercados globais e reforçaram a hegemonia do dólar.
No fim, a teoria dos jogos nos ensina que o vencedor não é quem joga melhor dentro das regras — mas quem consegue escrever as regras enquanto convence todos os outros de que não existem regras. E quando questionado sobre as consequências, simplesmente aponta para as pequenas ilhas no Caribe e diz: “Não são território nosso.”
Fontes Consultadas
Crise de Suez 1956: Northwest of Suez: The 1956 Crisis and the IMF (James M. Boughton, IMF Staff Papers) / Was Suez in 1956 the First Financial Crisis of the Twenty-First Century? (Finance & Development, IMF) / Suez and Sterling, 1956 (Queen’s Economics Department Working Paper) / U.S. Stake in Avoiding U.K. Financial Crisis (Office of the Historian, U.S. Department of State) / Financial Warfare (U.S. Army War College Quarterly: Parameters)
Origem e Crescimento do Euromercado: The Origins of the Eurodollar Market in London: 1955–1963 (Catherine R. Schenk) / Eurodollar (Wikipedia com dados históricos) / The Historical Expansion of the Euro-Dollar Market (ResearchGate) / The development of the Euro-currency market (Finance & Development, IMF, 1975) / Financial globalization as positive integration: monetary technocrats and the Eurodollar market in the 1970s (Review of International Political Economy) / The Eurodollar Deposit Market: Strategies for Regulation (American University International Law Review)
Teoria Offshore e Comercialização da Soberania: The Offshore World: Sovereign Markets, Virtual Places, and Nomad Millionaires (Ronen Palan, Cornell University Press) / Tax Havens: How Globalization Really Works (Ronen Palan, Richard Murphy, Christian Chavagneux, Cornell University Press)
Ilhas Cayman e Paraísos Fiscais: Cayman Islands: Business and Tax Advantages Attract U.S. Persons (U.S. Government Accountability Office, 2008) / The anatomy of the Cayman Islands offshore financial center (Review of International Political Economy) / Economy of the Cayman Islands (Wikipedia) / Private funds growth pushes number of Cayman funds above 30,000 (Cayman Finance, 2025) / Cayman Islands: Building On Innovation And Sustained Growth (IFC Review, 2025)
Panama Papers e Impacto em Países em Desenvolvimento: The Panama Papers: Exposing the Rogue Offshore Finance Industry (ICIJ) / Tax evasion & ICIJ reporting: governments recoup millions (ICIJ, 2025) / The Panama Papers: Connecting Tax Abuses and Human Rights (Center for Economic and Social Rights) / Panama Papers Have Had Historic Global Effects (ICIJ) / The Impact of Schemes revealed by the Panama Papers (European Parliament)
Swap Lines do Federal Reserve e Hegemonia do Dólar (2020): Central Bank Swap Arrangements in the COVID-19 Crisis (NBER Working Paper, Aizenman, Ito, Pasricha) / COVID Response: The Fed’s Central Bank Swap Lines and FIMA Repo Facility (Federal Reserve Bank of New York) / Central bank swaps in the age of Covid-19 (CEPR) / Governing Global Liquidity: Federal Reserve Swap Lines (Review of International Political Economy) / The Geopolitics of Swap Lines (Harvard Kennedy School) / The Federal Reserve’s Response to COVID-19: Policy Issues (Congressional Research Service)
