Gaokao: A Prova Mais Temida do Mundo

REUTERS/China Daily

Imagina acordar todos os dias às cinco e meia da manhã. Estudar até as dez da noite. Repetir isso por três anos. E saber que tudo — absolutamente tudo — depende de dois dias em junho. Essa é a realidade de mais de 13 milhões de jovens chineses que enfrentam anualmente o Gaokao, o exame de admissão universitária que alguns chamam de “a prova mais difícil do mundo”.

Quando falo sobre a China com brasileiros, percebo que poucos realmente entendem a dimensão do que é o Gaokao. Não é apenas uma prova. É o momento que define a vida de milhões de jovens chineses a cada ano. É o sistema de seleção universitária mais brutal e competitivo do planeta, e compreendê-lo significa entender muito sobre a sociedade chinesa contemporânea.

Quando você pergunta a um chinês sobre suas memórias mais marcantes da vida, existe uma grande chance de que ele mencione o Gaokao. Não é exagero: esse exame de admissão universitária que acontece todos os anos em junho é muito mais do que uma prova. É um rito de passagem, uma tradição cultural milenar ressignificada, e talvez a data mais importante na vida de milhões de famílias chinesas.

Em 2025, foram 13,35 milhões de estudantes prestando o exame. Durante dois ou três dias, dependendo da província, esses jovens respondem questões de chinês, matemática, língua estrangeira e outras matérias. O que está em jogo? O futuro. Simples assim.

Origem do Gaokao

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O Gaokao não surgiu do nada. Suas raízes estão no sistema de exames imperiais — o Keju — que durou 1.300 anos, até ser abolido em 1905. Criado em 605 d.C., durante a dinastia Sui, o Keju tinha um objetivo revolucionário para a época: selecionar funcionários do governo com base no mérito e conhecimento, não no nascimento ou conexões.

Os candidatos passavam por exames em múltiplas camadas — do nível local até a capital imperial. Os melhores recebiam títulos honrosos e eram agraciados pelo próprio imperador. No exame do palácio, os candidatos escreviam ensaios de mil palavras ou mais sobre problemas contemporâneos, e os dez melhores trabalhos eram apresentados ao imperador, que os classificava com um pincel vermelho.

Durante 1.300 anos, o Keju serviu como praticamente o único caminho para pessoas comuns ascenderem à elite. Essa ideia — de que o estudo e o mérito podem mudar seu destino — está tão entranhada na cultura chinesa que sobreviveu à queda do império. O Gaokao moderno foi restabelecido em 1977, dez anos após sua suspensão durante a Revolução Cultural, e trouxe de volta essa tradição meritocrática.

A logística

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Uma das coisas que mais me impressiona sobre o Gaokao é como a China inteira se mobiliza nesses dias de junho. Não estou falando apenas das famílias — estou falando da sociedade como um todo.

Em 2021, os departamentos de gestão de trânsito do país deslocaram uma força policial de 121 mil agentes e 43 mil viaturas apenas para manter a ordem no trânsito no primeiro dia de exame, prestando mais de 3.700 serviços emergenciais. Em Pequim, foram abertos mais de 5.800 estacionamentos temporários para pais que precisavam levar seus filhos de carro.

Em um distrito de Pequim, a polícia recebeu uma ligação às 8h03 de um pai preso no trânsito intenso. Os policiais encontraram o carro rapidamente e levaram o estudante de moto até a escola, chegando às 8h14 — 46 minutos antes do início do exame.

Ônibus fazem desvios, obras de construção são paralisadas para evitar barulho, e em algumas cidades até buzinas são proibidas nas proximidades dos centros de prova. Há sempre histórias de policiais e taxistas oferecendo caronas gratuitas para estudantes atrasados.

Tem até um detalhe que achei particularmente bonito: em cidades como Chongqing, Guangzhou e Changsha, policiais com números de distintivos terminados em “985” e “211” — que representam as universidades mais prestigiadas da China — ficam posicionados nas entradas das escolas, e famílias fazem fila para tirar fotos com eles, esperando atrair boa sorte para seus filhos.

O investimento das famílias

Para entender a dimensão do Gaokao na vida chinesa, precisamos falar sobre dinheiro. E os números são impressionantes.

As famílias chinesas gastam 7,9% de suas despesas anuais totais com educação — mais do que qualquer outro país. No Japão, México e Estados Unidos, por exemplo, esse percentual fica entre 1% e 2%. Em termos de renda, as famílias chinesas destinam em média 17,1% de sua renda anual à educação dos filhos.

Pais chineses gastam em média 120 mil yuans (cerca de US$ 17.400) por ano em aulas particulares extracurriculares, e alguns chegam a desembolsar até 300 mil yuans (US$ 43.500). Esse investimento maciço em tutoria privada reflete uma crença profunda: cada ponto a mais no Gaokao pode fazer diferença.

E as famílias mais pobres? Famílias do quartil de renda mais baixa gastam impressionantes 56,8% de sua renda em educação, enquanto as do quartil mais alto gastam 10,6%. É um sacrifício desproporcional que mostra o quanto a educação é vista como o único caminho de mobilidade social.

O cotidiano de quem se prepara

A preparação para o Gaokao não começa no último ano do ensino médio — começa muito antes. Os estudantes enfrentam doze anos de preparação marcados por centenas, até milhares de simulados. A educação chinesa, no fundo, é um sistema de testes, e o Gaokao é apenas o mais importante deles.

Em 2017, cerca de 38% dos estudantes do primeiro ao último ano do ensino médio participavam de aulas particulares suplementares — 34,6% no ensino fundamental, 43% no ensino médio e 40,8% no ensino médio superior. A taxa era de 45,2% em áreas urbanas e 25% em áreas rurais.

Existem até escolas que se especializaram nisso. A mais famosa é a Hengshui High School, conhecida como uma das “fábricas de Gaokao”. As rotinas são rígidas: estudantes acordam às 5h30, têm aulas o dia inteiro, e estudam até tarde da noite. Dias que começam com corridas obrigatórias e terminam com mais revisão. Sete dias por semana. Durante três anos.

Muitos pais alugam apartamentos perto das escolas meses antes do exame para garantir que seus filhos estejam próximos. 75% dos pais escolhem hotéis a menos de 1 km dos locais de prova, e mais de 40% preferem hotéis estrelados, pagando mais por quartos silenciosos, com mesas, lâmpadas adequadas e até bom feng shui.

A pressão vem de onde?

A intensidade do Gaokao não é apenas sobre educação — é sobre estrutura familiar e expectativas sociais. A política do filho único, implementada em 1979, criou uma geração de crianças que carregam sozinhas todas as expectativas de pais e avós.

Com menos filhos para depositar esperanças, cada criança se torna o recipiente de sonhos intergeracionais. Pais chineses têm expectativas significativamente mais altas em relação a filhos únicos do que aqueles com irmãos, e consequentemente, esses filhos únicos tendem a ter melhor desempenho acadêmico.

A prevalência de tutoria privada na China tem sido frequentemente ligada à tradição confucionista que enfatiza educação e diligência, criando uma longa história de exames e atividades de tutoria. Essa tradição cultural, combinada com a realidade de uma sociedade altamente competitiva, faz da educação uma prioridade absoluta.

O peso dos números

A competição é real, e os números não mentem. A taxa de admissão via Gaokao aumentou de 4% em 1977, quando o exame foi retomado, para 85% no ano passado. Parece muito, certo? Mas a questão não é apenas entrar na faculdade — é entrar nas melhores.

As universidades mais prestigiadas, como Tsinghua e Pequim, são extremamente seletivas. A competição é tão acirrada que cada décimo de ponto importa. Como dizem os professores em Anhui e Henan, províncias com grande número de candidatos: “Marcar um ponto a mais significa ultrapassar dez mil outros”.

O preço psicológico

Os dados sobre saúde mental são alarmantes. Uma pesquisa epidemiológica com 6.818 estudantes universitários revelou algo chocante: 36,5% de todos os casos diagnosticados de transtorno depressivo tiveram seu primeiro episódio dentro da janela de nove meses que vai de três meses antes do exame até três meses após a matrícula.

Outros estudos mostram que entre 16,7% e 35,4% dos calouros chineses apresentam sintomas depressivos de moderados a graves no primeiro ano. E não para por aí: 11,5% dos estudantes relataram ideação suicida.

Os casos extremos são terríveis. Em 2013, quatro estudantes do ensino médio tiraram suas próprias vidas após receberem notas baixas no Gaokao. Um deles, uma jovem de 20 anos em Sichuan, bebeu pesticida e morreu ao descobrir que suas notas não eram altas o suficiente para entrar na faculdade.

Mais do que uma prova

Como contou um estudante: “Quando estava no segundo ano do ensino médio, minha mãe alugou um apartamento minúsculo perto da escola para me acompanhar durante a preparação. Para uma família comum, aquilo era um peso financeiro, um sacrifício em prol de um objetivo compartilhado”.

E é exatamente isso que o Gaokao representa: um objetivo compartilhado. Não é apenas o estudante fazendo a prova — são os pais que economizaram durante anos, os avós que depositaram suas esperanças, os professores que dedicaram noites corrigindo simulados, a sociedade inteira que para por dois dias em junho.

O Gaokao é, ao mesmo tempo, o espelho de valores milenares — a crença confucionista de que o estudo pode transformar destinos — e de ansiedades modernas — a competição por oportunidades cada vez mais escassas numa economia em transformação. É pesado? Sem dúvida. Mas para milhões de chineses, é também o caminho mais justo que existe.

Mais detalhes: Only child, parental educational expectation, self-expectation and science literacy in Zhuang adolescents in China: A serial mediation model – ScienceDirect / Double Reduction Policy – Wikipedia / suicides prompt mental health row / Epidemiology of depressive disorders among youth during Gaokao to college in China: results from Hunan Normal University mental health survey | BMC Psychiatry | Springer Nature Link / Gaokao – Wikipedia / Grueling ‘gaokao’ test puts huge pressure on China’s young people – Radio Free Asia / What China’s most famous ‘gaokao factory’ reveals about the limits of its exam-driven education model – Asia News Network / The Gaokao Exam — Harvard University Press / Test Your Knowledge with Real Questions from China’ Gaokao 2025 | The World of Chinese / National College Entrance Examination (Gaokao) | Research Starters | EBSCO Research / Frontiers | Suicide in Chinese Graduate Students: A Review From 2000 to 2019 / The Influence of Depression on Learning Motivation among Chinese High School Students | Journal of Education, Humanities and Social Sciences / 24 Stunning Photos of China’s College Entrance Exams – Business Insider