Observo com atenção o desenrolar da mais ousada jogada geopolítica do governo Trump: a tomada de controle do petróleo venezuelano. Não se trata apenas de barris de óleo cru — embora sejam 303 bilhões deles, as maiores reservas comprovadas do planeta. Trata-se, fundamentalmente, de recuperar uma esfera de influência que Washington acredita ter perdido e, ao fazê-lo, cortar as artérias que alimentam uma rede complexa de adversários americanos.
O Petróleo que Alimentava Rivais
Durante anos, enquanto a Venezuela afundava no caos econômico sob Maduro, seu petróleo seguia fluindo — não para os cofres do povo venezuelano, mas para sustentar uma intrincada rede geopolítica que incomodava profundamente os estrategistas em Washington.
A China tornou-se o principal beneficiário, absorvendo impressionantes 80% das exportações venezuelanas. Pequim não agia por caridade: havia emprestado cerca de 60 bilhões de dólares ao regime de Maduro desde 2005, e o petróleo venezuelano representava uma apólice de seguro energético crucial — suprimento localizado fora da zona de controle americano, garantindo que aproximadamente 4% das importações chinesas não dependessem do guarda-chuva estratégico dos Estados Unidos.
Mas foi o papel do Irã que tornou a situação particularmente incômoda para Washington. Teerã não apenas comprava petróleo venezuelano; estabeleceu uma relação simbiótica sofisticada. Navios fantasmas iranianos cruzavam o Atlântico carregados de diluentes — substâncias essenciais para processar o petróleo extra-pesado venezuelano — e retornavam com óleo cru que depois seria enviado à China, além de ouro venezuelano. O lucro dessa operação financiava algo ainda mais preocupante: a Venezuela comprou drones iranianos, armas convencionais e até componentes químicos para mísseis balísticos. Havia até relatos de instalações de manufatura de drones em solo venezuelano. Para os estrategistas americanos, a Venezuela havia se tornado um braço operacional iraniano a poucas horas de voo de Miami.
A Rússia também fincou raízes profundas. Moscou fornecia diluentes, equipamentos militares avançados — incluindo uma frota de caças Sukhoi considerada das mais sofisticadas da América Latina — e mantinha investimentos estratégicos via Rosneft. O oligarca Oleg Deripaska deixou claro o temor do Kremlin: se os americanos controlassem os campos venezuelanos, controlariam mais da metade das reservas mundiais de petróleo, potencialmente mantendo os preços russos abaixo de 50 dólares o barril.
E havia Cuba. O regime de Havana recebia dezenas de milhares de barris diários de petróleo subsidiado — 27 mil barris por dia em 2025 — em troca de algo vital para Maduro: serviços de inteligência e segurança. Agentes cubanos permeavam o aparato de vigilância venezuelano. Era essa dependência que levou Trump a declarar que Cuba está “pronta para cair” após a operação em Caracas.
A Intervenção como Estratégia
Marco Rubio, secretário de Estado e arquiteto-chefe desta operação, deixou a estratégia cristalina em suas aparições no Capitólio. O governo americano estabeleceu um “quarentena” ao petróleo venezuelano — os navios estão cheios, não há para onde enviar mais óleo, e nada se move sem autorização americana. É uma alavanca econômica de pressão máxima.
A estratégia tem três fases. Primeiro, estabilização: o governo americano tomará entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo já carregados e os venderá a preços de mercado — não aos descontos que a Venezuela aceitava. Trump será pessoalmente responsável por controlar como esse dinheiro será distribuído. Segundo, recuperação: abrir a Venezuela para empresas ocidentais, principalmente americanas, começando a reconstruir a infraestrutura petroleira. Terceiro, transição: eventualmente, permitir que os venezuelanos escolham seu próprio caminho.
O preço de entrada, contudo, é inegociável. Como fontes próximas ao governo revelaram à ABC News, a Venezuela deve expulsar a China, Rússia, Irã e Cuba, rompendo laços econômicos com todos eles. E deve concordar em fazer parceria exclusiva com os Estados Unidos na produção de petróleo, favorecendo a América na venda de óleo pesado.
Rubio explicou que a infraestrutura venezuelana está em frangalhos — décadas de negligência, roubos sistemáticos e má gestão tornaram o país que produzia 3,5 milhões de barris diários nos anos 1990 em um produtor de apenas 800 mil barris hoje. Reconstruir isso exigirá investimentos colossais: estimativas falam em 53 bilhões de dólares apenas para manter a produção atual nos próximos 15 anos, ou 183 bilhões para retornar aos níveis históricos até 2040.
Empresas como Chevron, a única americana ainda operando no país com 150 mil barris diários (17% da produção venezuelana), estão em posição privilegiada. Mas tanto a ExxonMobil quanto a ConocoPhillips têm cicatrizes: ambas foram expulsas por Hugo Chávez em 2007 e ainda buscam recuperar bilhões em compensações — 12 bilhões para a Conoco, 2 bilhões para a Exxon. A receptividade da indústria, segundo fontes da CNN, está longe de ser entusiástica. Os preços baixos do petróleo, a incerteza política e a memória amarga da nacionalização anterior tornam o apetite limitado.
A “Doutrina Donroe”
Trump, num misto de grandiosidade e autocongratulação, rebatizou sua estratégia. Não é apenas a Doutrina Monroe de 1823 — que advertiu as potências europeias a não interferirem no Hemisfério Ocidental. É a “Doutrina Donroe”, como o próprio presidente a chamou, anexando a primeira letra de seu nome ao legado de James Monroe.
“A dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada”, declarou Trump em Mar-a-Lago. O Departamento de Estado foi direto: “Este é o NOSSO Hemisfério, e o presidente Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada.”
A estratégia de segurança nacional de dezembro de 2025 formalizou o que agora chamam de “Trump Corollary” à Doutrina Monroe — uma referência ao Roosevelt Corollary de 1904, quando Theodore Roosevelt reivindicou o direito americano de exercer “poder policial internacional” na região. O documento afirma que, após anos de negligência, os Estados Unidos “reassertarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental.”
A linguagem é clara: “Negaremos a competidores não-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério.” Analistas chineses já cunharam um termo para isso: “Novo Monroísmo” (新门罗主义).
Para os estrategistas de Washington, a lógica é autoevidente. Um país com as maiores reservas de petróleo do mundo, localizado a horas de Miami, não pode servir como posto avançado para Pequim, Moscou e Teerã. A presença chinesa em mineração de terras raras, as instalações iranianas de manufatura de drones, os conselheiros militares russos — tudo isso viola, na visão americana, os princípios fundamentais da política externa dos EUA que remontam dois séculos.
As Implicações Globais
A jogada venezuelana não acontece no vácuo. Trump ameaçou ações similares na Colômbia e no México, sugeriu que Cuba está prestes a colapsar, e continua pressionando pela anexação da Groenlândia e retomada do Canal do Panamá. Até Taiwan e Ucrânia observam nervosamente: se Washington pode violar normas internacionais para tomar um país rico em recursos, que precedente isso estabelece para Pequim no Estreito de Taiwan ou para Moscou em relação aos seus vizinhos?
A China emitiu condenações previsíveis, mas enfrenta um cálculo delicado. A Venezuela está a 13 mil quilômetros de Pequim, além de qualquer capacidade de projeção de força chinesa. E há os acordos comerciais recentes com Trump — reduções tarifárias, suspensão de controles de exportação de terras raras, compromissos de compra agrícola. Vale arriscar tudo isso por um aliado distante que representa apenas 4% das importações de petróleo chinesas?
Os refinadores independentes chineses, os “teapots” que dependiam do petróleo venezuelano com desconto, já estão migrando para fornecedores iranianos e russos. É um reajuste incômodo, mas gerenciável. Para o Irã, a perda é mais dolorosa — tanto os 2 bilhões de dólares que Caracas deve a Teerã quanto uma rota crucial para contornar sanções.
A Aposta de Longo Prazo
Rubio e Trump apostam que podem usar o petróleo como alavanca para remodelar completamente a Venezuela — e enviar uma mensagem ao hemisfério. Controlarão indefinidamente as vendas de petróleo, garantirão que empresas ocidentais dominem a indústria energética, e usarão os recursos para estabilizar o país enquanto mantêm adversários estratégicos afastados.
É uma aposta audaciosa que carrega ecos incômodos do Iraque — outro país rico em petróleo onde a mudança de regime deveria ser rápida, mas que afundou em caos durante anos. Democratas no Senado saíram das reuniões classificadas no Capitólio visivelmente insatisfeitos. Chuck Schumer, líder da minoria, chamou o plano de “insano” e “repleto de perigos”, alertando que confiar em autoridades corruptas remanescentes do regime de Maduro é uma receita para o desastre.
Mas Trump e Rubio parecem convictos. Para eles, não se trata apenas de petróleo ou segurança energética. Trata-se de restabelecer uma ordem hemisférica onde Washington dita as regras, onde rivais estratégicos não têm espaço para operar nas Américas, e onde o controle de recursos naturais críticos serve aos interesses americanos primeiro.
É o retorno explícito de uma visão imperialista de mundo — agora reembalada como “America First” e comercializada com a marca Trump. Se funcionará ou se tornará mais um atoleiro custoso, apenas o tempo dirá. Por ora, o petróleo venezuelano, que por anos alimentou adversários americanos, está sob nova administração. E o Hemisfério Ocidental recebeu um lembrete inequívoco: na visão desta Casa Branca, pertence aos Estados Unidos.
Fontes consultadas:
Reportagens:
- CNN Brasil – Veja 5 pontos necessários para que grandes petrolíferas voltem à Venezuela
- CNN Brasil – Professor: Venezuela se tornou representante da Rússia e China nas Américas
- CNN Brasil – EUA podem subsidiar reconstrução de infraestrutura na Venezuela, diz Trump
- CNN Brasil – Quem tem direito aos bilhões de dívida da Venezuela?
- CNN Brasil – Análise: Trump parece ver Venezuela como oportunidade de investimento
- Politico – Trump Venezuela oil fields
- Bloomberg Opinion – Venezuela oil: Trump now has his own petroleum empire in the Americas
- Bloomberg – Trump says US oil producers to invest billions in Venezuela
- Financial Times – Venezuela oil crisis
- The Economist – America’s raid on Venezuela reveals the limits of China’s reach
- Valor Econômico – Trump diz que controle da Venezuela pelos EUA pode durar anos
- Valor Econômico – Chevron negocia com governo dos EUA para expandir exploração de petróleo na Venezuela
- Valor Econômico – Chevron pode aumentar produção na Venezuela; ExxonMobil e Shell estimam lucros menores
- Valor Econômico – Presidente alemão afirma que EUA estão destruindo a ordem mundial
Fontes Governamentais e Análises Especializadas:
- US Department of State – Declaração sobre Venezuela (1)
- US Department of State – Declaração sobre Venezuela (2)
- US Embassy em Português – Comunicado oficial
Análises de Especialistas e Think Tanks:
- Tanker Trackers – Rastreamento de navios petroleiros
- Kyle Chan – Análise geopolítica
- Leandro Santanna – Comentário político
- The Free Press – Cobertura Venezuela
Além dessas fontes específicas, foram consultados: Radio Free Europe/Radio Liberty, Time, Al Jazeera, OilPrice.com, Iran International, Council on Foreign Relations, Atlantic Council, PBS News, Axios, ABC News, CBS News, CNBC, The Hill, NPR, e outros veículos especializados em análise geopolítica.
