A Venezuela e o Paradoxo das Maiores Reservas de Petróleo do Mundo

Olho para os números e ainda me custa acreditar. A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta: 303 bilhões de barris. Mais que a Arábia Saudita. Mais que qualquer outra nação. Mas aqui está o paradoxo que me fascina e me assombra ao mesmo tempo — esse país, que deveria estar nadando em riqueza, produz hoje menos de um milhão de barris por dia. Para colocar isso em perspectiva, nos anos 1970, a Venezuela bombeava 3,5 milhões de barris diariamente. O que aconteceu?

Quando analiso essa imagem, vejo uma ironia cruel. A Venezuela está no topo com seus 303 bilhões de barris, seguida pela Arábia Saudita com 267 bilhões. Mas enquanto os sauditas transformam suas reservas em poder econômico e geopolítico real, a Venezuela se tornou um estudo de caso sobre como desperdiçar uma benção geológica.

A questão central não é apenas ter petróleo — é conseguir extraí-lo, refiná-lo e vendê-lo. E aqui mora o primeiro problema: o petróleo venezuelano não é qualquer petróleo. Cerca de 60% da produção atual vem do Cinturão do Orinoco, uma formação geológica que concentra petróleo extra-pesado, denso como melado. Enquanto o petróleo convencional da Arábia Saudita flui naturalmente do solo em cerca de 50% dos casos, o petróleo venezuelano flui em apenas 8%.

Isso significa que extrair esse óleo demanda tecnologia sofisticada: injeção de vapor, diluentes importados, upgraders caríssimos para processar o crude viscoso. As refinarias precisam ser especializadas. Os custos são astronômicos. E pior: esse petróleo é negociado com desconto significativo no mercado internacional por causa de seu alto teor de enxofre e impurezas.

Em outras palavras, a Venezuela não possui as reservas mais fáceis do mundo — possui as mais complexas e caras de explorar.

A Destruição Sistemática da PDVSA

Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1990, a Petróleos de Venezuela (PDVSA) era considerada uma das empresas petroleiras estatais mais competentes do planeta. Produzia mais de três milhões de barris por dia com eficiência invejável. Então veio Hugo Chávez em 1999, e começou a transformação da PDVSA de empresa de petróleo em ferramenta política.

Este gráfico me arrepia. Ele mostra com uma clareza brutal o que aconteceu: a produção venezuelana atingiu seu pico entre 1970 e o início dos anos 2000, chegando a ultrapassar os 3,5 milhões de barris diários. Depois, sob os governos Chávez e Maduro, assistimos a um colapso vertical. A produção despencou para menos de um milhão de barris por dia — uma queda de mais de 70%.

O golpe fatal veio em 2002-2003, quando Chávez demitiu 19.000 funcionários da PDVSA que haviam participado de uma greve contra o governo. Não eram funcionários quaisquer: eram engenheiros de petróleo, técnicos especializados, geólogos, pessoas com décadas de experiência na extração de petróleo pesado. Num único movimento político, Chávez decapitou a capacidade técnica da Venezuela.

Mas a sangria não parou. Entre 2015 e 2018, mais de 30.000 trabalhadores deixaram a PDVSA, muitos deles profissionais altamente qualificados que fugiram do país em busca de melhores oportunidades. Hoje, esses engenheiros venezuelanos trabalham na Colômbia, no Iraque, no Canadá — contribuindo para o boom de produção de outros países enquanto a Venezuela afunda.

Nos anos 1970, o país nacionalizou toda a indústria petroleira pela primeira vez. Depois, na década de 2000, sob Chávez, veio a segunda onda: o governo ordenou uma migração forçada para joint ventures controladas pela PDVSA, onde a estatal venezuelana detinha o controle majoritário. Era pegar ou largar.

A maioria das empresas negociou sua saída. A Chevron, pragmática, migrou e manteve alguma presença. Mas ExxonMobil e ConocoPhillips — que tinham investido bilhões no país — recusaram os termos e foram simplesmente expropriadas. Seus ativos foram confiscados. Elas entraram com pedidos de arbitragem internacional que arrastaram por anos. A ExxonMobil, por exemplo, só conseguiu uma compensação parcial muito tempo depois: US$ 1,6 bilhão, uma fração dos US$ 12 bilhões que alegava ter perdido.

Agora Trump quer que essas mesmas empresas voltem? Com que garantias? A Venezuela teria que reformar profundamente suas leis para permitir investimentos majoritários estrangeiros. Teria que oferecer segurança jurídica real. Teria que provar — não apenas prometer, mas provar — que não vai repetir o confisco dos anos 2000.

E há ainda a questão mais espinhosa: a legalidade da própria operação americana que capturou Maduro. A intervenção militar direta dos EUA na Venezuela, por mais que tenha removido um ditador, levanta questões jurídicas complexas. Qualquer empresa que entre agora estará operando num contexto politicamente volátil, potencialmente sob um governo de transição, com legitimidade contestada por parte da comunidade internacional.

Sem contar os desafios práticos imediatos: a situação de segurança no terreno, com grupos armados ainda operando em várias regiões produtoras de petróleo; a infraestrutura completamente deteriorada que exigirá investimentos massivos antes de produzir um único barril adicional; e o risco permanente de instabilidade política a longo prazo.

A Corrupção Como Modelo de Gestão

E então há a corrupção. Quando digo corrupção, não estou falando de desvios marginais. Estou falando de um saque sistêmico e industrial das riquezas nacionais. Jorge Giordani, ex-ministro do planejamento de Chávez até 2014, estimou que US$ 300 bilhões simplesmente desapareceram — foram roubados. Trezentos bilhões de dólares.

Entre 2004 e 2015, pelo menos US$ 11 bilhões foram comprovadamente desviados em esquemas de propina dentro da PDVSA. A empresa se transformou numa máquina de patronagem política. Competência técnica deixou de importar. O que importava era lealdade ao regime. Militares sem qualquer conhecimento de petróleo foram colocados em posições-chave. Em 2017, Maduro entregou a presidência da PDVSA ao general Manuel Quevedo, da Guarda Nacional. Um general comandando a maior empresa petroleira da América Latina.

O resultado foi previsível: infraestrutura em colapso, refinarias obsoletas, oleodutos que não são atualizados há 50 anos, equipamentos sem manutenção. A própria PDVSA admite que seriam necessários US$ 58 bilhões apenas para restaurar a capacidade produtiva aos níveis de pico. E isso num país que já não tem acesso a financiamento internacional.

O Colapso Econômico Sem Guerra

Neste gráfico de produção mundial, vejo uma história de ascensão e queda. Os Estados Unidos dispararam a partir de 2010 graças à revolução do shale oil. A Arábia Saudita se mantém como potência estável. O Iraque se recupera lentamente de décadas de conflito. E a Venezuela? Mal aparece no gráfico, reduzida a uma linha fina e insignificante.

As consequências econômicas são devastadoras. O PIB venezuelano encolheu 80% entre 2013 e 2021. Oitenta por cento. Para colocar isso em perspectiva: o PIB caiu de US$ 370 bilhões em 2013 para cerca de US$ 80 bilhões em 2018, tornando a economia venezuelana menor que a da Guatemala ou Etiópia.

A Venezuela sofreu a quinta maior queda de padrão de vida da história econômica moderna, comparável apenas a países devastados por guerras — Iraque, Líbano, Líbia — ou ao colapso da União Soviética. Mas a Venezuela não teve guerra. Não teve invasão externa. Teve Chávez e Maduro.

A hiperinflação atingiu 130.000% em 2018. Cento e trinta mil por cento de inflação anual. Para manter os gastos governamentais enquanto a economia implodia, o Banco Central passou a imprimir dinheiro como se não houvesse amanhã — 20% a 30% de expansão monetária por mês. O resultado foi uma espiral hiperinflacionária que destruiu poupanças, pulverizou a classe média e empurrou 95% da população para abaixo da linha da pobreza.

Quase 8 milhões de venezuelanos — um quarto da população — fugiram do país desde 2014. É uma das maiores crises migratórias da história recente, comparável apenas à crise síria. Engenheiros, médicos, professores, trabalhadores qualificados — todos deixando para trás um país que um dia foi o mais rico da América do Sul.

O Paradoxo das Exportações

Quando olho para este ranking dos maiores exportadores de petróleo em 2022, a ausência da Venezuela é gritante. Os Estados Unidos lideram com 9,5 milhões de barris por dia. Arábia Saudita exporta 8,8 milhões. Rússia, 7 milhões. A Venezuela? Nem aparece entre os dez maiores, quando deveria estar disputando o topo desse ranking.

Em 2022, o país exportava meros 1,2 milhões de barris diários — e parte significativa disso a preços de desconto para a China e aliados que aceitavam negociar com um regime sob sanções internacionais. A Venezuela se tornou uma fornecedora marginal num mercado global onde deveria ser protagonista.

As sanções americanas, intensificadas a partir de 2017 e 2019, aceleraram o colapso, mas seria desonesto atribuir a crise apenas a elas. A produção já havia despencado 50% antes das sanções secundárias. O que as sanções fizeram foi cortar o acesso da PDVSA aos mercados formais, forçando a venda de petróleo no mercado negro, através de intermediários que cobravam sobrepreços absurdos.

Mais importante: as sanções afastaram empresas com capacidade técnica real. Chevron, ExxonMobil, Total, Equinor — todas deixaram o país ou reduziram drasticamente suas operações. E essas empresas não levaram apenas capital. Levaram conhecimento, tecnologia, acesso a equipamentos de ponta, gestão moderna. Justamente o que a Venezuela mais precisa para explorar seu petróleo complexo.

A infraestrutura venezuelana está em ruínas. Oleodutos com 50 anos sem manutenção adequada. Refinarias operando a 10% da capacidade. Plataformas de petróleo abandonadas. Navios petroleiros tão deteriorados que representam risco de afundamento ou derramamento, segundo documentos internos da própria PDVSA.

Mesmo que houvesse uma mudança política radical amanhã, mesmo que todas as sanções fossem suspensas, mesmo que empresas estrangeiras voltassem com bilhões para investir — ainda assim levaria anos, talvez décadas, para restaurar a produção aos níveis históricos. A PDVSA perdeu seu capital humano. Os profissionais qualificados foram embora. A cultura organizacional foi destruída. Não se reconstrói isso da noite para o dia.

A história venezuelana é um alerta brutal sobre como má governança pode transformar bênção em maldição. Ter 303 bilhões de barris de petróleo não significa nada se você não tem competência técnica, instituições funcionais, Estado de direito e políticas econômicas sensatas.

O petróleo venezuelano continua lá, enterrado no Cinturão do Orinoco. São 17% de todas as reservas comprovadas do planeta. Mas reservas são apenas uma promessa. Produção real exige investimento, tecnologia, gestão competente e estabilidade política. Sem isso, todo esse petróleo não passa de números num relatório — números que medem não a riqueza de um país, mas a magnitude espantosa de uma oportunidade desperdiçada.

Enquanto isso, o mundo segue girando. Os Estados Unidos extraem shale oil. A Arábia Saudita mantém sua produção estável. O Iraque se recupera lentamente. E a Venezuela, dona das maiores reservas do planeta, observa de fora, afundada numa crise que ela mesma criou, um monumento vivo à incompetência governamental e à destruição deliberada de uma das maiores indústrias petroleiras que o mundo já conheceu.


Análise baseada em dados da OPEC, U.S. Energy Information Administration (EIA), Council on Foreign Relations, Economics Observatory, Bloomberg, e relatórios da própria PDVSA.